Terça-feira, Abril 28, 2009
Procuro-te

Procuro-te, no limiar da nossa janela,
com a hora do lobo [que alimentamos,
já corpulenta] a afoguear a garganta.
Nas mãos, a pequenez da distância
a derreter a manteiga [rubra e casta]
no pão que as nossas bocas semeiam.
Resisto às cortinas como o ouro
no fundo do oceano [sem estragos]
mas não ao dedo que tens na boca.
Vejo-te multiplicada em cada quadradinho
da janela, embaciado no avesso
pelo ar que ainda não respiro.
Amolecidos pelos óculos de Pessoa,
os teus lábios [chamejantes e assertivos]
declamam o espelho de ti no que escrevo.
Do teu olhar [que eu não vejo nem oiço, mas
sinto] não me bastam dois sorrisos nem o som
que a tua rouca voz rouba ao silêncio.
Poema: Nilson Barcelli © Abril 2009
Fotografia: Desconheço o autor
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Terça-feira, Abril 21, 2009
Fado desafinado

Há muito que percebemos
que o que sempre procuramos é um dia
mais claro que o de ontem, um azul mais azul
do que o que temos e tudo, em nós,
a exalar felicidade. Enquanto isso não chega,
é à pouca sorte e aos outros que, sobranceiros,
endossamos as razões de tal desgraça.
Ainda não aprendemos a ser felizes
com o que temos e, preguiçosos, pouco ou nada
fazemos para que aconteça o que queremos.
Muito menos aprendemos
que os outros querem o mesmo, e que é em nós
e no acaso que eles vêem a raiz dos seus fracassos.
Crentes e infelizes, desafinados,
mas firmes e professorais, cantamos o fado
com um pé na fé da sorte à viola e com o outro
a coxear fora do ritmo, sentindo que estamos certos.
Porque errados, a destoar à guitarra da perfídia
e paralíticos, estão quase todos os demais.
Poema: Nilson Barcelli © Abril 2009
Fotografia: Stalker
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Terça-feira, Abril 14, 2009
Encontrei a cidadela

Encontrei a cidadela, assinalada
por estandartes, sob o distraído olhar
do castelo, velho, de costas para o burgo
e com o nariz metido no mar.
Não vi canhões nem portas da traição,
intangíveis por falta de inimigos,
mas avistei sargaços em catadupa
nas vagas da caravela a mim abraçada.
Provei, nervoso, o sabor da alegria
há tanto tempo amuralhada, sem pé
nem tempo para encher piscinas de marés.
As gruas, ao largo, batiam palmas,
que ecoavam em redutos
de há muito conhecidos. Os nossos.
Poema: Nilson Barcelli © Abril 2009
Fotografia: Autor desconhecido
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Terça-feira, Abril 07, 2009
Subimos

Subimos. Os degraus,
à medida que os pés os deixavam,
partiam-se. Arcámos o peso do regresso no transpor
do parapeito, definitivo na pilha de paus
para trás. A escada, construída por nós,
desconjuntou a noite. Como saída única,
eu e tu nos gonzos.
Eu, como tu, um olhar às escuras, aceso
nas palavras. De mãos geladas lá fora,
atirei-me para cima, já dentro,
no calor do balão insuflado.
Tu, um peixe fora da água. Multipliquei
os teus suspiros nos meus. Caímos
num chão sem volta às mãos do coração.
De ambos, a marchar em disparos, soldados.
Poema: Nilson Barcelli © Abril 2009
Fotografia: Carla Maio
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