Terça-feira, Janeiro 27, 2009
Encher a alma com uivos de Sol

Aliados, cicatrizamos as desventuras despidos ao Sol
e a mágoa não se abate redonda,
de olhos fechados,
em pecados já mortos pelo fogo dos nossos milagres.
De mãos dadas, encolhemos as fronteiras das sombras,
detendo a noite,
e apostamos em cruzadas de palavras brancas
para enterrar vivos os nossos fantasmas que rosnam.
Continuaremos a voar transpirados de gritos nas veias
e a respirar suspiros na síntese da voz,
que a garganta adelgaça,
enquanto não tocarmos em pássaros a rir de tristeza.
Persistiremos em esvaziar as circunstâncias da carne
que fervilha de seiva e em encher a alma com uivos de Sol
enquanto não ouvirmos sereias a chorar de prazer ao luar.
Poema: Nilson Barcelli © Janeiro 2009
Fotografia: Alex K – Attraction of fire
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Terça-feira, Janeiro 20, 2009
Destino

Do tempo, em nós encavalitado,
incapazes de o impedir
rumo ao infinito irrevogável,
somos pauzinhos inúteis
na engrenagem do pêndulo sideral.
Nesse trajecto, que acompanhamos
com a mesma influência das pedras,
reeditamo-nos em mortos futuros
para alongar a viagem que sabemos finita.
Mas, incongruentes, derretemos
demasiado gelo no uísque
do nosso consumismo
e abreviamos enfatuados a excursão,
cada vez mais quente e contaminada.
Depois disso, o tempo caminhará
sem a nossa companhia,
a menos que tenhamos arte e engenho
de nos mudarmos para outro relógio
a tempo inteiro habitável.
Poema: Nilson Barcelli © Janeiro 2009
Fotografia: Autor desconhecido
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Terça-feira, Janeiro 13, 2009
Quando a claridade surge

Quando a claridade surge
do ventre da noite,
és a derradeira musa
a esconder-se no palco e,
ainda a noite estrebucha,
já gasta e quase morta,
és a primeira graça
a entrar em cena com luz.
Nessa metamorfose,
demoro-me na indecisa crisálida
que troca de vestes e acaricio
desbragadamente o teu corpo,
num camarim aceso pela sorte
que me apraz em ter o ensejo
de te ver assim intacta.
Mas…
Não me pertences… És perfeita,
em mim, integralmente.
És íntegra, para além de mim,
perfeitamente.
Poema: Nilson Barcelli © Janeiro 2009
Fotografia: Rafal Kay
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Terça-feira, Janeiro 06, 2009
Quando me lembro de ti

Quando me lembro de ti
e do teu corpo em suspiros,
o Inverno afasta-se, tocado pelo calor
da brisa libertada pelo teu nome.
Nesses momentos,
sei que estarás comigo a despir
as pétalas do teu sorriso,
e sei que beijarei cada bem-me-quer
que nos teus olhos cintile.
Num festim mais que perfeito
de uma verdade só nossa,
bem claro no Verão
que tinge a nossa pele de amor,
vejo então o teu despir sublimado
no cintilar dos teus olhos
e o nosso sangue é feliz.
Poema: Nilson Barcelli © Janeiro 2009
Fotografia: Lars Raun – The wild flower
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