Terça-feira, Julho 07, 2009
A vontade surda-muda de nos termos

Na verdade, nunca foste minha.
Nem eu deveras fui teu.
A nossa entrega teve
as asas da liberdade dos pássaros vestida.
Antes disso, gostava sossegadamente
da essência das coisas e era feliz.
Era um gostar de alguém
que ama sem ter mais nada para amar.
Enquanto foste minha e eu teu,
sem o sermos, senti melhor e mais perto
o inteiro mar que nos olhava,
unos, ainda que esvoaçantes.
E fui ainda mais feliz,
porque me deste o sentir sem nada me retirar.
Agora que não te tenho, sem nunca te ter tido,
vejo que nada perdi do que me deste.
Sinto o mar como quando estava contigo.
Talvez porque, errantes, as nossas asas
se tenham tornado irrelevantes,
e sejamos, um do outro,
a vontade surda-muda de nos termos.
Poema: Nilson Barcelli © Julho 2009
Fotografia: Autor desconhecido
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