Terça-feira, Junho 30, 2009
Eu já não sei

Enquanto, das palavras,
o grito e o silêncio se dissolvem
numa fogueira ateada por achas de inquietude,
os teus gestos, do beco para onde
há mil resignações te empurram, são inaudíveis.
.
E eu já não sei
se és a voz de um rio sem água
nas margens da garganta,
se alguém que se dobra para colher
uma flor que não existe.
Enquanto a noite, madrasta, prospera
na sombra que alumia a tua alma diurna,
e ela se tortura numa reza de tristezas madraças,
são invisíveis, nos teus olhos,
as centelhas que florescem no amanho do futuro.
E eu já não sei
se és a agonia amordaçada
pelo tirano calar do prazer,
se a alegria de asceta disfarçada
na luxúria do prazer desse calar.
Poema: Nilson Barcelli © Junho 2009
Fotografia: Luísa Paula – Há fantasmas que nos perseguem
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