Terça-feira, Junho 23, 2009
Ciclo virtuoso

Ao abrires as bainhas da pele
ao ritmo de um milímetro por dia
[até que fiques nua],
vislumbro, em cada poro,
o indício e a fragrância da volúpia.
Do teu corpo, ora proibido, nada vi…
As minhas caladas mãos
não foram além da feição visível
[na tremura do toque e do tacto]
do teu medalhado decote.
Deste pousio, um retiro intacto
de propósitos num conflito
de herbicidas de enganos
com fertilizantes de mel,
germinará o ciclo virtuoso
da colheita sucessiva
[sem delito serôdio ou temporão]
dos recatos da alma, primeiro,
e dos recantos do corpo, depois.
Deste amadurecido vagar,
usufruto maior que a razão haverá:
as nossas bocas não serão estrangeiras
no beijar de caminhos
afeiçoados aos arbítrios da língua
e correrá geleia real [finalmente]
nos meandros das nossas fronteiras.
Poema: Nilson Barcelli © Junho 2009
Fotografia: Haleh Bryan
NOTAS:
- “Ciclo virtuoso” – conceito que pode ser aplicado ao desenvolvimento científico,
tecnológico, económico, organizacional, ambiental, pessoal, social, etc.,
por oposição ao conhecido “ciclo vicioso”.
- “Pousio” - estado do terreno que não é cultivado para ficar mais fértil.
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