Terça-feira, Outubro 28, 2008
Sabes que eu posso fazer em ti

Sabes que eu posso fazer em ti
os poemas que gostas,
para que o burburinho das águas
te molhe os interstícios da alma
enquanto te sirvo colheradas
de algodão doce
embebido nas palavras,
para que as castas metáforas de amor
te façam esquecer
a areia movediça
dos mistérios das coisas
explicadas em dogmas.
Sabes que eu posso fazer em ti
os poemas que sonhas,
para que a fêmea depravada
e enclausurado nas palavras
libertárias do teu corpo,
sempre submisso
à minha espada amotinada
e que esperas desabotoada
sob a forma de flor de ninfa predadora,
te libertem do afogo
da realidade das coisas
que não precisam de explicação.
Sabes que eu posso…
Mas eu não sei se quero.
Talvez eu não te queira encontrar agora
para não te perder depois.
Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2008
Fotografia: Jimma Travina
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Terça-feira, Outubro 21, 2008
Se amas é porque não pensas

Em maior ou menor grau,
o que vemos a cada instante é sempre novo.
Temos o olhar que um recém-nascido teria
se tivesse a percepção
de que tinha vindo à luz de facto.
Acreditamos nas coisas porque as vemos
ou porque alguém nos disse que existem.
Elas revelam-se, mas não as compreendemos,
porque as coisas não se pensam
(que eu saiba,
ninguém compreende uma flor ou a lua…).
Ainda que nem todos os que não pensam
possam amar,
se amas é porque não pensas.
Porque se pensasses
não ficavas a saber o que amas nem o motivo.
Se amas a Deus, não o compreendes.
E nem pensas nele,
porque se o fizesses estarias a desrespeitá-lo,
já que Ele preferiu que o não víssemos.
Ou,
porque o olhamos como recém-nascidos,
não o vemos.
Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2008
Fotografia: Daniel Camacho
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Terça-feira, Outubro 14, 2008
Se me querem doutrinar

Se me querem doutrinar
e acham
que eu devo abraçar uma religião,
fiquem descansados, já a abracei.
Mas apenas com a carne
e com os ossos
que a terra ou o fogo hão-de comer
é que sou religioso,
e portanto pecador…
Sem vontade de a entender,
vivo no desejo persistente
de sentir essa religiosidade
e não de acerca dela meditar.
Versejo almas sem saber o que elas são
porque a minha não a sei.
Se o soubesse,
talvez fosse um santo
e nem sequer escrevesse um poema.
Essa é a minha religião,
peco a vida num deserto engarrafado
a encher o copo com as miragens
das almas de outros corpos,
num corpo a corpo sentido
onde as tento despir, para as ver,
sem jamais o conseguir.
Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2008
Fotografia: Anton Senkou
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Terça-feira, Outubro 07, 2008
Se sentisses todas as cores do chão que pisas

Se sentisses todas as cores
do chão que pisas,
talvez fosses menos feliz
e amaldiçoasses
a maioria das metáforas
que os sorrisos fingidos
te vendem.
Se ouvisses todos os rumores
do ar que respiras,
talvez percebesses
a vantagem da surdez
e agradecesses
não seres capaz de ler
os pensamentos dos outros.
Se tudo sentisses e ouvisses,
talvez estranhasses
quão nua vai a tua felicidade
e percebesses quanta
da bem-aventurança
dos pobres de espírito
também é tua.
Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2008
Fotografia: Marta Ferreira – Interromper uma ideia é crime
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