Terça-feira, Setembro 30, 2008
Deste calor que se vai

Deste calor que se vai,
cuja falta me iria tornar triste,
para o Inverno
dele guardo lenha enxuta,
na ideia prevenida
de conservar o meu fogo.
Por cada sonho que se mostra,
derrotados os tremores inevitáveis,
iludo as nuvens,
que me hão-de arrefecer,
na procura
de o colher desassombrado.
Por isso, quero-te minha
ainda flor, no viço da maturidade,
para que desverdeças comigo
e não de sol-posto no peito.
Poema: Nilson Barcelli © Setembro 2008
Fotografia: Autor desconhecido
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Terça-feira, Setembro 23, 2008
EUS

Incontáveis são os eus que nos habitam.
Diferentes os meus dos teus,
mesmo não os podendo comparar,
porque, tal como tu, por dentro não me vejo.
Vejo-te quando te imagino ou sinto,
mas desconheço qual de mim te vê.
Não sei qual de ti me imagina e sente,
nem sei qual de mim tu vês.
Se eu chamar de alma
àquilo que em nós imagina e sente,
as almas que temos são muitas.
Tantas almas quantos os eus,
que lutam entre si continuamente
para monopolizarem o imaginar e o sentir.
Quando nos tocarmos, vamos contar
quantas das nossas almas se beijam
e, só então, saberemos se é
com amor que os nossos eus se entrelaçam.
Poema: Nilson Barcelli © Setembro 2008
Fotografia: Autor desconhecido
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Terça-feira, Setembro 16, 2008
Conheces-me nos raciocínios das mãos

Conheces-me nos raciocínios das mãos,
nos considerandos do corpo, e,
nas rugas engomadas do que sinto,
sabes dos reinos a ti semiabertos,
que nunca semicerrados o foram.
Nas tuas mãos,
já não tuas, mas minhas, que as quis,
teci um diadema que sublinha o teu corpo
reanimado de Rainha,
não a alma, que é de Deusa.
Nas minhas mãos,
já não minhas, mas tuas, que as usas,
debruaste-me um ceptro que eu não vejo,
mas que sentes sob o manto da ternura,
também minha.
Se da vida não sobrar
maior gosto que o sentir imaterial,
sintamo-nos então, e, sentindo,
sem tactear moldemos cegos o sustentável.
Poema: Nilson Barcelli © Setembro 2008
Fotografia: Autor desconhecido
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Terça-feira, Setembro 09, 2008
Miragens

Estrelas soberanas
de contribuintes involuntários,
líquidas
e momentâneas como todos nós,
vendem-nos as miragens
que cobiçamos.
No labirinto de vida
que nos desenharam, encurralados,
de em nós meditar verdadeiros
nos esquecemos,
e contemplamos dilatadas estrelas
que nos sujeitam escravas
de as venerarmos luzentes.
Porém, é na bondade fingidora
a fazer de ainda maior
como o pão a levedar
(a esmola é grande)
que temos de aprender a medir
a distância a que de nós
está o céu que nos prometem.
Poema: Nilson Barcelli © Setembro 2008
Fotografia – Ivan Kap - at the end of the labirint
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Terça-feira, Setembro 02, 2008
À sombra do imponderável guarda-chuva sem pano

À sombra
do imponderável guarda-chuva
sem pano
do Criador desleixado,
moro sem guarda-soleiro à vista
na vontade de resistir
aos furacões por Ele enviados.
Impotente
face ao Homem
que do barro Ele me impingiu
em duas tentativas,
eventualmente falhadas,
quero tão-só
que a sorte me tenha concedido
o contento por destino.
Da certeza do ser, nada mais quero
que as incertezas da vida
que o Criador me legou,
já que a sorte só com trabalho
e nem Ele a saberá construir.
Poema: Nilson Barcelli © Setembro 2008
Fotografia – Autor desconhecido
Música – Janis Joplin – Kosmic Blues (1973)
Janis Joplin - Kozmic Blues
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