Quarta-feira, Janeiro 30, 2008
Como se eu fosse gaja como tu

_______________ cair no abismo ou em desgraça,
_______________ mesmo que isso represente
_______________ um degrau sem altura que se meça.
_______________ Mas se alguém resolvesse
_______________ dar um tiro no resvalo
_______________________ (e no engano)
_______________ e prenunciasse, qual profeta
_______________ que a poemas recorresse,
_______________ o meu propósito,
_______________ eu faria uma comédia
_______________ na mais séria doidice,
_______________ como se rir
_______________ fosse magia que mudasse
_______________ o que parecia uma tragédia.
_______________ Muito embora
_______________ eu te queira sem degraus,
_______________ podes deitar a cabeça no meu ombro,
_______________ podes chorar, podes rir
_______________________ (mas baixa a tua arma)
_______________ sem comédias nem tragédias,
_______________ como se eu fosse gaja como tu.
Poema: Nilson Barcelli © Janeiro 2008
Fotografia: Amanda Com
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Quarta-feira, Janeiro 23, 2008
O fim começa agora

____________ Nascem lendas, morrem mitos,
____________ rasgam-se mapas vivos
____________ com as naus que timonamos
____________ a desbravar a existência
____________ com punhados de bom-senso.
____________________ Salgamos a loucura
____________________ num mar de humores desbragados.
____________ Sobrevivemos a mares exaltados
____________ ou flutuamos a navegar
____________ em lagos chãos de águas frescas,
____________ inquinadas, muitas vezes,
____________ por outras naus desumanas.
____________________ Somos náufragos do tempo
____________________ onde certezas se quebram.
____________ Em qualquer caso,
____________ empurrado por ventos de feição
____________ ou desnorteado por bússolas pretas,
____________________ o fim começa (sempre) agora.
Poema: Nilson Barcelli © Janeiro 2008
Fotografia: Khimaereus
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Quarta-feira, Janeiro 16, 2008
Estás tão longe de mim

Estás tão longe de mim
que viajo até à nobreza
do teu decoro de velas
suspenso no feixe de luz
que te nasce do olhar,
porque o guardo comigo
para voarmos bem perto.
Quando chego,
é como rosa em botão
que te descubro,
ainda fechada,
solitária e pronta a explodir
em mil sóis de pétalas
que me abraçam em delírio.
Peça por peça,
vou-te mostrando
no brilho que te inunda
as pedras preciosas
que me dás infatigável
do teu ser ao desbarato.
Eterna menina em flor,
musa traquina de afecto:
estás tão longe, nas brumas…
mas tão perto de mim e da luz
que posso morder
os teus seios, os teus lábios,
nesta dança sensual
de imagens corpo a corpo
em que te mimo e te amo.
Poema: Nilson Barcelli © Janeiro 2008
Fotografia: Autor desconhecido
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Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
Esta noite

Esta noite
quero demorar-te em mim,
quero ficar em ti,
provar-te e ser saboreado
no parentesco da alma,
no magnetismo indizível
que a distância não embarga.
Esta noite
quero fazer de ti o meu canto,
de mim o teu encanto,
quero tactear os teus sinais,
respirar à luz do fogo
que ateado em duplicado
dissolva a nossa ausência.
Esta noite
quero tocar em ti resplandecente,
quero desarrumar-te,
sorver o borbulhar do teu corpo
e verter champanhe bruto
na tua taça de cristal.
Esta noite
quero sonhar contigo,
quero brindar-me inteiro
no teu sonho vivo em desejo.
Poema: Nilson Barcelli © Janeiro 2008
Fotografia: Andrew Maidanik
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Quarta-feira, Janeiro 02, 2008
Sonho de pôr-do-sol

Transito na utopia do teu corpo
segundo cachorro esfaimado
de raiva sedento.
Destapo recantos
vividos de gelos arcaicos,
águas quentes
agora inquietas
feitas nascentes
em refúgios proibidos.
Agarro-me à tua nudez
provocante,
alucinante,
até à fraqueza.
Abandono o sonho
no zénite da explosão capital
a que me conduzes.
E quebro-me para poente,
de onde sei que por agora
não acudirá mais
o teu sol nascente.
Poema: Nilson Barcelli © Maio 2005
Fotografia: Autor desconhecido
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