Quarta-feira, Julho 02, 2008
Quando a noite chegar

Quando a noite chegar,
do ser ficará o nosso corpo inconsciente:
será o vento a largá-lo à sua sorte.
Quando a noite chegar,
a carne beijará o chão até ser terra
e os ossos, mais teimosos,
depois de se diluírem na chuva
em contínua viagem para o rio,
acabarão por ser despejados no leito
confundidos no musgo e na lama,
alimentando peixes.
Quando a noite chegar,
deixaremos de contemplar o verde
e de tocar o céu,
porque a paisagem
perfurará lentamente as retinas,
e as mãos, consumidas pelas raízes,
chegarão ao estômago de mamíferos
que gostem dos frutos.
Por isso, enquanto não somos
peixes vermelhos apaixonados,
cerejas amantes
ou até vendedores chegados de fruta,
quero beijar a tua boca agora ardente
e provar todas as delícias
que há no mar do teu corpo ainda vivo,
num abraço
de lábios por dois desejos unidos
num só poema azul.
Poema: Nilson Barcelli © Julho 2008
Fotografia: Zzepda
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