Quarta-feira, Setembro 26, 2007
Ainda há tempo

Será ainda possível,
meu amor, acariciarmos
os versos da querença buliçosa
na rima dilatada do desejo,
varrendo os estigmas
do nosso passado dispersos?
Ainda que convencidos
da cumplicidade da pele
que estala no corpo
em arroubos da carne,
poderão ser mendigas as mãos
que se enlaçam nas noites de espuma.
Ainda que convencidos
do poema que brota do afecto,
os verbos poderão vacilar
nos seus passos
e cair em jardins destroçados,
soçobrando no lodo de pétalas mirradas.
Mas, mesmo que o sol
já tenha almoçado,
ainda há luz, meu amor,
e enquanto o luar cresce
e nos abraça, ainda há tempo
de criarmos sobremesas de flores.
Meu amor, ainda há tempo
de sol, de luar, para que a nossa pele
se confunda no toque que a faz vibrar.
Poema: Nilson Barcelli © Setembro de 2007
Fotografia: Autor desconhecido
54 Comentários BLOGSPOT love poems poemas de amor Comentários HALOSCAN: |
Quarta-feira, Setembro 19, 2007
Engaiolados

Algures,
há sempre uma cândida lupa
que nos espia
e nós esquecemos tal sentinela
(de contrário,
sentimos um frio na espinha
que nos impõe
uma pose mais favorável).
Descobrimos, até,
que há uma sapiência omnipresente
no labirinto onde todos
nos podemos perder,
ao ponto de pensarmos
que os nossos obstáculos
são provações
deliberadas pelo olho da lupa.
E nós, vindos do pó
e que ao pó havemos de voltar,
fazemos de conta
que não somos apenas
passarinhos reclusos
que gostam de cantar
engaiolados no espaço de penas
e no tempo traiçoeiro.
Fingimo-nos eternos
e enganamo-nos vivos, até inventámos
que o inverso não pode ser verdadeiro.
Poema: Nilson Barcelli © Setembro de 2007
Fotografia: Autor desconhecido
61 Comentários BLOGSPOT love poems poemas de amor Comentários HALOSCAN: |
Terça-feira, Setembro 11, 2007
Somos Deuses

Procuramos o ideal
atolados em pântanos,
somos árvores perdidas a triturar
verdades escuras que adubam o chão
por onde se passeiam
as raízes que nos sustentam.
Apascentamos a alma
e engordamos a razão
num choro sereno,
imploramos que os braços
se tornem frondosos
e abarquem um céu sempre azul,
filtrado das chuvas ácidas
que teimam
em irrigar com prantos negros
as impotências da vida.
Esgravatamos as entranhas do saber
para encontrarmos o sílex do desejo,
dissolvemo-nos na pirólise
de maciços rochosos
que embargam horizontes,
percorremos o mapa do querer
em nascentes de força que devorem
o húmus indeclinável.
Somos Deuses, fazemos milagres
para que a seiva chegue aos frutos
que queremos ao sol,
suspensos à sombra dos nossos ramos.
Poema: Nilson Barcelli © Setembro de 2007
Fotografia: Daniela – Fruit of Passion
58 Comentários BLOGSPOT love poems poemas de amor Comentários HALOSCAN: |
Quarta-feira, Setembro 05, 2007
O cetim inextinguível dos teus beijos

Correr para ti
na medida em que te falto,
é um sentir renascido
que germina oculto
na sementeira dos sentidos,
é um silêncio
que se esmaga atroador
no grito que detenho,
é um sonho
que se furta indomável
ao sono em que perduro acordado,
longe do vento e do pranto.
Fugir de ti
na medida em que te abraço,
é uma louca galopada
que mergulha
nas marés de cetim do teu desejo,
é um rasgar
da carta negra
de intenções em desertar,
é um canto profundo
na lava que nos veste,
despidos,
em fragores de rouquidão.
Vences-me sempre: mesmo esvaído
em desejos, despojas-me uma e outra vez
com o cetim inextinguível dos teus beijos.
Poema: Nilson Barcelli © Setembro de 2007
Fotografia: Stephane Bourson
44 Comentários BLOGSPOT love poems poemas de amor Comentários HALOSCAN: |
