Quarta-feira, Julho 25, 2007
Levantei o sol

Levantei o sol
em manhãs de chuva cinzenta,
cosi estrelas
em cortinas bordadas de silêncios,
sem que as palavras
- daninhas que fossem –
tivessem rompido.
Atei as mãos
à ausência do teu rosto,
cravei o corpo
que desejo no meu peito,
sem que o sorriso
- hotel de memórias tuas –
fosse esquecido.
Adormeci no sonho
de voar em montanhas de volúpia,
despertei em abismos
de saudade relutante,
sem que as auroras
- madrugadas submersas de ti –
brotassem francas de brumas.
Enquanto isso, construí outro leito,
para que não adormeças na pedra fria de palavras.
Espera-te um jardim
onde cultivei as tuas pétalas
regadas com beijos de sol e abraços de azul.
Poema: Nilson Barcelli © Julho de 2007
Fotografia: João Vasco
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Quarta-feira, Julho 18, 2007
O sol que a tua sombra incendeia

Já caminhei descuidado,
em paz, mas numa luta furtiva
contra a ordem, corrupta, da ditadura
que se desmoronou antes da revolta.
Passeei-me pela guerra, amena,
de bulícios embriagados
na desordem de revoluções em curso
nunca alcançadas.
Também fui fugitivo
de práticas embotadas,
de tantas rezas estéreis
como de juras surdas ao juízo,
em confrarias fartas de talentos boçais.
Até passei fome de palavras interditas,
que não de sardinhas,
que não de pão,
ainda que não soubesse pescar
nem tivesse provado
do que o diabo amassou.
Agora, espero por ti,
democraticamente,
sem paz nem revolta,
sem rezas nem clamores de antigamente,
sem direito à fome
que tenho do teu olhar cavado, capaz,
de margarida espontânea,
ainda que não tenhas o dever
de iluminar o nosso azul inacabado.
Até lá, resta-me o sol
que a tua sombra incendeia.
Poema: Nilson Barcelli © Julho de 2007
Fotografia: Salih Guler
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Quarta-feira, Julho 04, 2007
Não há maior fortuna

| Mika - Relax (Take... |
Não há maior fortuna
do que ver-te a caminhar destemida
até quase ao infinito da alma,
apesar do teu grito anarquista
enquanto os gestos vão morrendo
a cada olhar deslaçado da partida.
Deveria estar assustado
como quem dança com o fogo,
ou mesmo apavorado
com a dor forçada do espanto,
onde as carícias que te faço
teriam mãos queimadas
em prantos de fado vadio.
Ou então,
deveria partir relaxado, alegre,
ao som de uma música pimba.
Mas parto apenas saudoso,
por estar certo do retorno
às brisas sem nós enlaçadas
na música sempre nova do teu corpo,
onde nos perderemos facilmente,
devagar, para que a dança
nos prenda e nos volte a soltar.
Boas férias para todos.
Poema: Nilson Barcelli © Julho de 2007
Fotografia: Autor desconhecido
Música: Mika – Relax (Take it easy)
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