Quinta-feira, Agosto 31, 2006
Percorro os teus lábios

Percorro os teus lábios
e afogas-me de mel.
Arrastas-me
no compasso do teu corpo
até ao luar que nos molha
pintado em beijos de bocas de fome
em nós há muito semeadas.
Abandonas-me no que te perde,
colo da tua flor orvalhada
de pássaro mulher,
que acometo como vento
a afagar a seara delicada
até que as sementes fiquem maduras
nos motins do teu olhar.
Encontras-te no que me nasce,
que te invade no calor
a calar os teus segredos,
entregues à descoberta
sempre nova a cada chama.
Libertamos
os humores do nosso sangue,
transportados em clamores
unânimes de fogo,
e adormecemos
em conchinha de batel
o sonho das nossas bocas
com fome de beijos de mel.
Nilson Barcelli ©
Fotografia: Stanmarek
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Sexta-feira, Agosto 25, 2006
Dois oleiros em delírio

O barro de que és feita
foi-se colando à minha pele
e, galgados os poros,
afagou-me desperto
as quinas dormentes dos sentidos.
O barro de que sou feito
aderiu aos teus segredos,
aguou as tuas mágoas
e ajustou-te à mulher
quase sem medo
dos medos de antigos sóis.
Modelamo-nos na roda de sol
do cume do Verão
da nossa fantasia de oleiros,
e passamos a ser um querer
aconchegado pelo desejo,
de sabor agridoce
da partilha de suores,
onde navegamos ufanos
em nuvens de algodão
e navios de papel.
Mas,
porque temos a força
de dois oleiros em delírio,
vamos moldar de novo o barro,
a quatro mãos,
cozendo-o nos corpos ardentes
das nossas noites ausentes de Outono,
tornando-o taça
das taças da vida.
Nilson Barcelli ©
Fotografia: Marina An
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Domingo, Agosto 20, 2006
Beijar-te

Beijar-te, será desvendar
O gosto puro nos teus olhos
Em berço largo de candura.
Será entrar no anel de fogo
Que inunda, sem o saberes,
A tua carne embriagada
Pela entrega com loucura.
Será reconhecer as aves intactas
Que voam inocentes
No sorriso delicado do teu rosto.
Será incendiar-te,
Afogar-te o peito erguido
Com as chamas dos meus braços.
Será rasgar a minha fronte
Para que a tua se alague
Da nudez divinal que te habita.
Será sussurrar-te palavras com rastilhos
Até que atices a pólvora
Da desordem do meu grito sobre o teu.
Beijar-te, será coabitar-te
Até que eu morra
A cada espasmo que te mate.
Texto: Nilson Barcelli ©
Fotografia: Lia Costa Carvalho
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Quarta-feira, Agosto 16, 2006
Sem o querer

Sem o querer,
vazamos pedras
no lago adormecido,
onde navegávamos à bolina
de ventos verdadeiros.
Mas não quisemos
amainar as ondas
que então provocamos
na loucura bruta do sentir.
Do naufrágio,
na obscuridade da espuma
dessas ondas reprimidas,
afinal um mar incontornável,
salvaremos a vertigem boa
do sonho exacto a preservar.
Nilson Barcelli ©
Fotografia: Mehmet Ozgur – Night at sea
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Sexta-feira, Agosto 11, 2006
Para sempre

Ainda não morto
o teu desassossego
em mim foste renascendo
sem o saberes
pura noviça de um novo templo
Do mutismo dos teus destroços
sem pressas
foi brotando uma nova flor
que passou a olhar-me
timidamente como sol
Ausente de ti
o teu corpo sem sonhos
de feição desordenada
era uma ruína imponderável
que logo despi
ainda que vestida de festa a destoar
Foi então que as minhas mãos
num imprevisto enlace
os juntou pacificados
e os beijos que trocamos
celebraram com estrelas
esse reencontro sublime
Para sempre minha amiga
acredito que para sempre inseparáveis
Nilson Barcelli ©
Fotografia: Stanmarek
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Sábado, Agosto 05, 2006
Fechamos o tempo

Fechamos o tempo dos tempos
que se acabou incompleto,
sem chave nem relógio.
Viverei sem esse tempo,
mas ele habitará em mim inacabado,
guardado no baú
das minhas lindas jóias de corsário,
até agora estranhamente devoluto.
Predadores e presas,
Fomos vencidos, subjugados,
mas também tornados livres
para depois desse tempo
viver outras virtudes,
porventura outros pecados.
A chave do baú trago-a no bolso,
para o abrir no futuro
sempre que quiser presentear-me.
Nilson Barcelli ©
Fotografia: Pintura de Nicoletta Tomas – hands to fly
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