Quinta-feira, Março 30, 2006
Brinde ao amor

Hoje não te me quero
De subjectivo ao pescoço embrulhados
Porque amanhã
As pálidas faces de assustada
Não poderão de novo florir
Em limites inúteis
De medo em riste no futuro a apontar
Porque se te me fecham as janelas
Se não brindarmos ao amor
Nesta Quaresma de roxo
A vermelho de amor assoalhados
Nilson Barcelli © Proibida cópia sem autorização
Fotografia: Joana Lorça – Brinde ao amor
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Segunda-feira, Março 27, 2006
Sonâmbulo

Sonâmbulo,
Deambulei por subúrbios de caminhos
Edificados na chuva de palavras,
Levando nos bolsos vendavais de carícias
Derramadas pelas viagens do teu olhar.
Acordado,
Caminhei por avenidas inteiras de desejo
Traçadas por cem mãos de polvo astuto,
A desaguar aturdidas no teu corpo
Ao som de rugas irritadas de prazer.
Hoje,
Percorro-te na lenta vertigem do toque
Desenhado na pele inquieta da espera,
Incapaz de resistir à sede que inunda
As nossas avenidas com um só caminho,
O nosso.
Nilson Barcelli © Proibida cópia sem autorização
Fotografia: Sylvie Lueders – It’s easy being green
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Quinta-feira, Março 23, 2006
Terei sido eu?

Fotografia: Nilson Barcelli – Berlim – Porta de Brandenburg
Há chamas dispersas pelo vento,
Pelo nada ou por ninguém.
Se ninguém foi,
O nada não se mostrou
E o vento não era de feição,
Quem foi então?
Terei sido eu?
Mas, implacavelmente,
Quase tudo vai sendo queimado.
Logo, repisando cinzas,
Acharemos na liberdade das ruínas
O mais esmerado rebento,
Plagiado de outras façanhas,
Sob a luz dos mesmos projectores
De inauguração repisada.
Serei eu disfarce do nada,
Do vento ou de ninguém,
Ou nado eu num mar
De pastosas subtilezas?
Nilson Barcelli © Proibida cópia sem autorização
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Segunda-feira, Março 20, 2006
Sem vacilar um talher

Parte por parte, despiu-o numa meiguice febril,
Temperou-o ao seu sabor:
Pimenta, alho e cebola, sal, limão e Porto velho.
Na travessa pôs-lhe salsa, rosmaninho atrás da orelha,
Mostrou-lhe o forno ardente, lume nos olhos, tições,
A queimar de tão acesos.
Na espera de gestos prontos, adoçou unhas nervosas
Do frio abismo, sem fundo, onde esfriara lembranças,
Gazela triste, salgada, numa vigília sem estrelas
De água-ardente de afecto.
Chegaram no tempo certo, no preceito de toalha
Sem migalhas, branca e posta sem urgência de partida.
Naquele caldo de amor, sem vacilar um talher,
Ela apostara sem medos todo a saber da cozinha.
Nilson Barcelli © Proibida cópia sem autorização
Fotografia: Llona Wellman
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Quinta-feira, Março 16, 2006
O parto do sossego

Eu não tenho horas
Certas de relógio alheio ou meu,
Mas elas comemoram
Em fortes badaladas
O solstício em que te libertei
Do teu desassossego.
Pariste-o nas minhas mãos,
Suave e tímido sossego,
No êxtase das nossas línguas,
Num pulsar imaculado
Em réplicas de emancipados tremores.
Não esbanjarei, predigo-me,
O que me sobra do tempo
A cozer-me no baço fogo
Da sopa de vermes da incerteza,
Nem me sepultarei aceso num fosso
De mortalha alinhavado,
Quando o teu sossego é intransmissível,
É teu, é meu, só nosso.
Poema: Nilson Barcelli © Proibida cópia sem autorização
Fotografia: Sue Anna Joe – Sisters of secrecy
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Segunda-feira, Março 13, 2006
Barco à vela

Barco à vela, barco à vela,
Andas fugido do mar…
Com medo da ventania
Ou pavor de naufragar?
Trazes contigo a bonança
Sem ventos nem maresia,
Recados do meu amor
Ou feitos de fantasia?
Vou armar-te paladino
Como um bravo defensor,
Consagrar-te à minha amada
Sem vela mas com motor.
Poema: Nilson Barcelli © Proibida cópia sem autorização
Fotografia: Nilson Barcelli
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Quinta-feira, Março 09, 2006
Em construção

Caminho
Ausente de terrenos interditos.
Percorro trilhos arredados
De recatos burilados
Do meu mutismo
A cada verbo
Que empurra a distância
Para longe
A deixar de ver
O que de mim
Persiste aceso ou destruído.
Palmilho o desvendar
Devorado do disfarce
Em que teria amanhecido
Todos os começos,
Pensando-me já construído.
Nota: este foi o primeiro poema que escrevi (Abril de 2005). Publico-o de novo por falta de tempo para escrever.
Nilson Barcelli © Proibida cópia sem autorização
Fotografia: Nilson Barcelli
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Segunda-feira, Março 06, 2006
O canto do meu nome

O canto do meu nome
Nos teus lábios, decorado
Em lusitanos verbos, tecidos no recato
Das nossas línguas, de passarinhos,
Que se aconchegam
No ninho desvendando rostos
Das nossas fomes de trovas cevadas.
O teu nome venerado em rimas
De silêncios, só meus, retratos de verdade
Iguais aos teus, inteiros no mutismo
Em que me empenho, nome perene
De amanhãs plenos de eminentes encantos.
Retido por monções de afecto, o teu nome,
Murmurado, sempre
Ofuscando de mil cores as tintas
Brancas e pretas dos meus dias.
Estendem-se os nossos nomes meninos,
Imensos, na praia da saudade, só nossa,
Nus na limpidez de leitos de areias,
Vestidos de crenças que não sabem
Desnudar-se às máculas alheias,
Porém sempre descalços para nós.
Poema: Nilson Barcelli © Proibida cópia sem autorização
Fotografia: Jean-Sebastien Monzani - Silence
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Quinta-feira, Março 02, 2006
Não sei o que vi

Não sei o que vi
Nos teus olhos
Ora castanhos de mulher
Ora verdes de criança
Se o vento da paixão
Ou a brisa do desejo
Sei que me derrubam
Os teus beijos
Que me refazem
Nos gestos do teu corpo
No sorriso de mil faces
Nos teus braços
De todos os abraços
De olhos desejo paixão
Sei que me dissipo
No nada sem rumo
De estrelas no éter
Que me embriaga
Na certeza de antever
Os teus olhos
Numa qualquer janela
Castanhos ou verdes
Crianças de desejo
Mas com ventos de paixão
Poema: Nilson Barcelli © Proibida cópia sem autorização
Fotografia: Sue Anna Joe – Conception
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