Segunda-feira, Janeiro 30, 2006
Os meus sonhos

Fotografia: Nilson Barcelli
Emoldurei o produto dos meus sonhos para os pendurar na parede da verdade.
Agora sou livre para continuar a perseguir novos sonhos, diferentes molduras e mais sonhos ainda.
Até que a parede já não comporte mais sonhos encaixilhados e tenha de construir novas paredes.
Sem descurar alicerces, cofragens, vigas e colunas.
Que a verdade precisa de ser bem segura, consolidada e resistente, para não deixar cair os sonhos nas ruas da amargura.
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Quinta-feira, Janeiro 26, 2006
Viagem

Escondes-te, por vezes, por detrás da opacidade dos teus biombos de gestos com palavras de letras.
Indiscreto como sou, vejo-te nua para além do poema:
Os insondáveis apuros que das tuas janelas especulas, na luz de pálpebras reclusas da noite libertada, revelam-me horizontes de sonho metamorfoseados do ontem, mas coabitados no hoje, para que amanhã sobrevivam plenos de utopias inalcançáveis, onde a jornada é o fito e não a chegada.
Fotografia: Joana Lorça
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Segunda-feira, Janeiro 23, 2006
Para quê

Para quê fugir-te
Se me encontras, sempre que queres
Amor a ferro e fogo de paixão.
Para quê esconderes-te
Se não te sobrevivo na ausência,
Na saudade futura de ti.
Para quê inventar
Se ao meu toque o teu corpo
Estremece em poemas
Submersos de regaços domingueiros.
Para quê iludir-me
Se me tremem as mãos na tua pele,
Aturdidas, a enxergar a razão.
Para quê…se queremos
Carícias desenhadas por todas as mãos,
Sensatas e loucas, vadias e afáveis.
Para quê, então, tanta tortura,
Se queremos todas as noites
Quentes, desmedidas,
À medida do nosso encantamento.
Fotografia: X Maia
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Quinta-feira, Janeiro 19, 2006
Âncoras e amarras

Todos nós precisamos de âncoras que não sejam amarras. O que poderá ser contraditório.
Viver também é saber gerir âncoras para que não se tornem amarras, mesmo sabendo que o equilíbrio é muitas vezes instável.
Porque o mais fácil está sempre nos extremos: ficar amarrado ou isento de compromissos.
Só que nenhum destes extremos dão prazer à vida.
Só se é verdadeiramente livre quando temos as nossas âncoras sem amarras.
Fotografia: A. Brito - Âncora
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Segunda-feira, Janeiro 16, 2006
Recuso-me a morrer

Sou náufrago do tempo
Que morreu, que me despejou
Neste mar de um só sentido
Quase sem me descobrir.
Hoje,
Vislumbro janelas floridas
Para além do horizonte
Das gavetas de memórias,
Inundadas de certezas esguias
A flutuar na aridez
Farta de chuva evaporada.
Exijo
Que alguém me tire tempo antigo,
Varrendo memórias não sentidas,
Sem interesse, obsoletas,
E que mo devolva agora por usar.
Recuso-me a morrer,
Preciso de tempo para me descobrir
Inteiro nas janelas sem prisões
Que me sorriem.
Poema e Fotografia: Nilson Barcelli
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Quinta-feira, Janeiro 12, 2006
Escrevo como o pássaro

Escrevo como o pássaro
Que voa sem motivo aparente,
Livre como o vento
E à custa do vento.
Escrevo
Sem precisar de falar a verdade,
Sem me servir da mentira,
Recorrendo à ficção
Ou à realidade.
A todas elas
Ou ao seu contrário,
Correndo de mãos dadas,
Embaladas quase sempre
Em doses ponderadas,
Diferenciadas.
Sem escola nem guião,
Escrevo sempre sem razão
Convencido da razão,
Muito ou só um bocado.
Quase sempre,
Ou mesmo sempre,
Para não ficar calado.
Poema e Fotografia: Nilson Barcelli
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Segunda-feira, Janeiro 09, 2006
Fragmentos de ti
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Fotografia: John Crosley
Recordamos todas as imagens esquecidas da nossa adolescência, num só dia, sem as vermos, e a nossa primavera, já remota, ganhou novas cores e limites. Na paisagem de aromas de pinho, escuto o teu som inquieto, o verdadeiro, escoltado por tons de maresia, na floresta onde os cantos se escapavam até nós por entre mil dunas de desejo. O sol, até ali silencioso, desenhou a minha felicidade escondida no teu rosto. Tomei o teu corpo deitado, embriagado, de mulher feliz, e vi-te reflectida em mim. De mãos dadas na aventura do vento, deixamos o medo escondido nas gavetas do tempo. Abandono-te, mas teimo em continuar a colar fragmentos de ti. Mesmo longe, sem sol, persistirei em ver-te, em juntar-te, em construir-te até que fiques inteira. Mesmo no meio da escuridão, sozinho, apenas e só iluminado por um lampião.
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Fotografia: John Crosley
Recordamos todas as imagens esquecidas da nossa adolescência, num só dia, sem as vermos, e a nossa primavera, já remota, ganhou novas cores e limites. Na paisagem de aromas de pinho, escuto o teu som inquieto, o verdadeiro, escoltado por tons de maresia, na floresta onde os cantos se escapavam até nós por entre mil dunas de desejo. O sol, até ali silencioso, desenhou a minha felicidade escondida no teu rosto. Tomei o teu corpo deitado, embriagado, de mulher feliz, e vi-te reflectida em mim. De mãos dadas na aventura do vento, deixamos o medo escondido nas gavetas do tempo. Abandono-te, mas teimo em continuar a colar fragmentos de ti. Mesmo longe, sem sol, persistirei em ver-te, em juntar-te, em construir-te até que fiques inteira. Mesmo no meio da escuridão, sozinho, apenas e só iluminado por um lampião.
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Quinta-feira, Janeiro 05, 2006
Tecendo a maré

Tecendo a maré,
Deambulamos
Pelas nossas pensadas fantasias,
A pé,
A colorir sonhos de mar.
Pouca terra,
Haverá pouca terra
À beira-mar da nossa saudade futura.
Embriaguei-me
Nos vapores de uma ilusão
Ao pé do teu comboio,
À chuva do teu sorriso
Sem mala de mão.
Peguei na tua estranha mão,
Abracei-te conhecida
Ainda o comboio, inocente,
Se achava parado.

Inebriei-te com álcool
Do meu desejo,
A apitar que nem um desalmado.
Purificamo-nos com beijos
Envoltos de barcos,
No mar chão
Com medo das ondas sem arcos.
Navegamos nas águas
Fabulosas
Dos nossos devaneios passados.
Afundei-me dentro de ti,
Sucumbiste ao meu naufrágio,
Caímos redondos, abraçados.
Perdemos o pé na maré.
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Segunda-feira, Janeiro 02, 2006
Morrer aos teus braços
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Fotografia: Jim Zuckerman - Ballerina
Vestida
De sorrisos atrevidos
Posaste nua
Para mim.
Em traços de formiga
Diligente
Esbocei a tua imagem
No quadro
Da nossa fantasia.
Com as minhas mãos
Cinzelei as palavras
De desejo,
Colori os beijos que me deste.
Agora,
Quero rasgar os teus sorrisos,
Ouvir os teus gemidos,
Enxugar o teu corpo
Molhado.
Depois,
Quero abrir portas e janelas,
Gritar, dançar,
Cair para o lado,
Morrer aos teus braços
Abraçado.
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Fotografia: Jim Zuckerman - Ballerina
Vestida
De sorrisos atrevidos
Posaste nua
Para mim.
Em traços de formiga
Diligente
Esbocei a tua imagem
No quadro
Da nossa fantasia.
Com as minhas mãos
Cinzelei as palavras
De desejo,
Colori os beijos que me deste.
Agora,
Quero rasgar os teus sorrisos,
Ouvir os teus gemidos,
Enxugar o teu corpo
Molhado.
Depois,
Quero abrir portas e janelas,
Gritar, dançar,
Cair para o lado,
Morrer aos teus braços
Abraçado.
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