Segunda-feira, Março 20, 2006
Sem vacilar um talher

Parte por parte, despiu-o numa meiguice febril,
Temperou-o ao seu sabor:
Pimenta, alho e cebola, sal, limão e Porto velho.
Na travessa pôs-lhe salsa, rosmaninho atrás da orelha,
Mostrou-lhe o forno ardente, lume nos olhos, tições,
A queimar de tão acesos.
Na espera de gestos prontos, adoçou unhas nervosas
Do frio abismo, sem fundo, onde esfriara lembranças,
Gazela triste, salgada, numa vigília sem estrelas
De água-ardente de afecto.
Chegaram no tempo certo, no preceito de toalha
Sem migalhas, branca e posta sem urgência de partida.
Naquele caldo de amor, sem vacilar um talher,
Ela apostara sem medos todo a saber da cozinha.
Nilson Barcelli © Proibida cópia sem autorização
Fotografia: Llona Wellman
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