Quinta-feira, Junho 30, 2005

A noite passada 

Praça da Flor de Sal

A noite passada levantei voo e vi-te no meu mapa dos sentidos. A imagem que percebia era forte. Seria o indício da saudade na espera que consentes? O sintoma dos ciúmes que te assaltam? O anúncio das certezas que nos unem?
A noite passada voei para ti. Engoli a distância num tempo sem horas que não durou mais que um instante e descobri-te menina-mulher ainda acordada da noite passada. Em que sonhaste, acordada, com a minha chegada.
A noite passada corri para ti. Levei-te flores que roubei do jardim que criaste para mim. Nem uma ficou para que a falha não fosse notada. Pousei-as no chão à volta de ti borboleta.
A noite passada sonhei que era um passarinho. Fui ver-te desperta à espera de mim. Matar-te a saudade que há-de ter fim. Beber-te o ciúme que queima o teu peito. Encher a tua arca de corsária de certezas sem causas sabidas.
A noite passada derramei orvalhos na Flor de Sal que há nos teus olhos, espelho de ti. A noite passada salgaste os meus lábios sedentos de ti. A noite passada bebi o sal que te ofereci. A noite passada perdi-me em ti.


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Terça-feira, Junho 28, 2005

Instante de passarinho 

NimbyPolis 2005


A praça está envelhecida, mais caduca do que nunca. Os pardais e os trovadores podem viver felizes aqui, onde só falta um relógio preguiçoso que voe
(num instante de passarinho fiquei a olhar, sozinho…)
como num quadro de Dali. As árvores estão curvadas, a tentar catar as folhas caídas no chão. Um velho e uma árvore trocam silêncios com o Outono nos corpos enquanto a luz se espreguiça na sombra. Para a velhinha, de olhar curioso à janela, toda a gente que passa é sua visita matinal
- Bom dia…!
muito embora ninguém a veja ou ouça, neste fim de tarde de certezas de caminhar a direito para qualquer lado.
Nem um gato vadio ocupa o banco onde o tempo e a sujidade das pombas parecem hibernar. A rapariga vagabunda remexe as últimas novidades do caixote do lixo do canto, que talvez lhe possam alimentar o cão e o vício da droga. Já só vendia comiseração avulsa e o lixo em que se tornou há muito que afastou os últimos clientes, os mais perversos do seu corpo.
Porque não vi, não ouvi, não senti tudo isto, se sempre estive aqui?
- Vens embora ou vais continuar aí especado a olhar os pardais?
Acordaram-me do instante de passarinho. A praça, os pardais e os trovadores esfumaram-se. O velho e a velhinha são agora pessoas de meia-idade em cavaqueira animada. Um gato preguiçoso dorme no banco pintado de fresco. E uma rapariga jeitosa olha intrigada para mim, enquanto comia um gelado que comprara ao vendedor ambulante.



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Sexta-feira, Junho 24, 2005

Flor de sal 

Nimbypolis 2005


Voaste
Nas asas do meu poema de afectos
Onde agarramos vasos descobertos
Em jangadas à bolina de ventos de feição
E mergulhamos
Sem medos
Em fluidos transparentes de corais.

Sonhaste
Apertar-me no teu peito
Ao som das vagas de um desejo
Aceso no querer intenso de correr
Para aportares
No cais dos meus braços abertos
Que acreditam
Sem ondas
Na brisa que dará vida
Às velas do nosso abraço.

Quero-te
Minha flor de sal
A navegar para além do teu castelo
Ao sabor de ventos e marés
Zarpando dos molhes do cais novo
Que encerras no teu canto de sereia
E que sabemos pronto e leal
Na outra margem do teu rio.

E quando a noite crescer
No monte de Santa Luzia
Há o meu farol a alumiar-te
Do bugio ou da Senhora da Agonia
A acompanhar a tua linha
Para que te não percas
Na espuma da deslembrança
Da nossa melodia
E possas de novo, enfim, ser minha.


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Terça-feira, Junho 21, 2005

Podemos 



Podemos pensar
Que caminhamos libertinos,
Afogados na fogueira
De uma chama passageira,
Inconscientes.
Podemos ver-nos
Ítalo e Odalisca
De um bordel arquitectado,
Deitados
Sobre o saque de conquistas
E capitulações ponderadas
De um império decadente.
Podemos até julgar
Que tudo é inflamado, aparente,
Onde a rendição é geral
Sem nada de surpreendente.
Podemos...
Mas também podemos navegar
Nos escolhos da ternura,
De olhares perdidos
Encontrados
De um fogo reverente.
E podemos ainda ancorar
O vaso e o fluido decifrados,
Num mar chão só com corais
De água limpa e transparente.




Poema: Nilson Barcelli © Junho 2005
Fotografia: Carla Maio


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Sexta-feira, Junho 17, 2005

Anda… não tenhas medo 

(Anda… não tenhas medo – Vitor Melo)


Surgiste da noite
(de sorriso inaugurado de promessas)
Para o dia
(com a fogueira do gosto no corpo)
De claridade intacta nas têmporas.
Vi-te por entre periscópios
De reflexos distraídos
A naufragar de socorros
(lancei-te bóia e retenida),
Exausta de embalar sonhos sem olhos
Num mar perpetuamente bravio.
E mostraste-me o vento seco e frio
A trincar os teus pés descalços,
Verdes pela ausência do meu beijo,
Delicados pela firmeza da espera.
Deste-me o trigo afortunado do teu ser,
Penteado em madrugadas longínquas
Por ventos de igualdades planeadas,
Onde o meu sono desfasado
Era por ti engalanado de vigílias.
Mas breve acudirá o ensejo
Onde saberemos depurar o desejo,
O sumo e o resumo da vida,
Não deixando que a ampulheta maldita
Continue a vazar a areia do tempo destino.



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Quarta-feira, Junho 15, 2005

Mais uma viagem... 


(Fotografia de José Eduardo)


É um fim de tarde chuvoso: a cidade devora luzes cinza e água.
(mas nem um trovão do teu corpo aqui chega)
Chove e não posso ir à rua como é meu hábito. Gosto de andar por onde calha por uma razão especial: eu adoro viajar. Mas para mim viajar é olhar, é ver as coisas, é ver as pessoas e imaginar o que está por detrás ou para além delas, sem a pele do tempo a atrapalhar.
(e que saudades eu sinto do tempo dos passos de pássaro no telhado lá de casa…)
Só que hoje chove desalmadamente, na rua e na alma. Está frio e não posso ficar com gripe outra vez. Mas a minha janela também me permite vaguear, seguir a poeira de passados regressados.
Por sorte há um comboio a atravessar a tarde também nevoenta. Atiro-me da janela a voar com a Primavera no corpo e entro em andamento, pois tenho a certeza que não vou ter acidente nenhum. E sem bilhete, porque o revisor nem me vai ver.
Há poucos lugares vazios e sento-me em frente a duas jovens.
- Foda-se pá… já viste aquele gajo que está ali?
Falavam de um rapagão aloirado que estava no banco do lado a olhar pela janela distraído.
- O gajo deve ser panasco, ainda nem reparou em nós…
Saí dali ao fim de meia dúzia de hipotéticos pouca-terra-pouca-terra com os meus ouvidos riscados e instalei-me mais à frente,
(e, sentado, tentei admirar a doçura do teu ventre, orgulhoso...em gestação)
perto da Ti Aninhas, que estava com várias sacas, certamente de algumas migas que lhe deram. Olhava pela janela com a cara no nada, sem ver a paisagem que corria desenfreada a mirá-la de preto costumeiro. Continuaria a magicar no seu homem que o mar cão lhe levou? Certamente que sim, apesar dos mais de dez anos decorridos desde a tragédia.
(vi-te pela primeira vez… uma vaga grande e alta, aquela que um dia me permitiu fazer-me ao teu belo mar)
Ainda mais à frente o pastor estava deitado no corredor com a apreensão na ponta do rabo e a vista no bico do nariz. Ia com um olho em quem passava e outro no sorriso sem tréguas do Tininho Cabaça.
- Ah… quem me dera poder sorrir e chorar. Não posso porque sou cão, mas o meu dono parece estar sempre contente, o que não é verdade. Conheço-o muito bem e sei que é um pobre de espírito que não sobrevive sem mim.
Tinha o sorrir desbocado desde criança, talvez pelo vinho dos pais. Ou por eles serem primos direitos e a mistura do sangue não se ter dado bem.
Tão distraído que eu estava que até me esqueci da chuva, dos trovões, dos passos de pássaro, de tudo. Dei por mim quando o comboio parou na mesma estação. Retomei o lugar na janela.
(e nos sonhos que fui criando… a vista se foi perdendo na ambição de te navegar – será que os bons dias são irreais ou carregam a redenção de um naufrágio?)
Já era noite e ainda chovia. Não se via vivalma. Onde é que andaria toda a gente? Nos comboios fantasma?


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Segunda-feira, Junho 13, 2005

Não me avisto 

Nimbypolis


não
me avisto
a desviar
a tua blusa.
mas
se o meu sonho
te despe
retiro destro
a tua pele,
calculando somas,
sem prova
dos nove ou real,
de todos
os teus
códigos
secretos.


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Sexta-feira, Junho 10, 2005

Cerveja...! 



O meu jantar de ontem aconteceu neste espectacular restaurante/cervejaria.
A comida é servida como em qualquer outro mas, para determinados tipos de carne, pode ser colocada directamente em cima de umas tábuas compridas que correm para cima da mesa.
A bebida “obrigatória” é a cerveja de barril de madeira. Pode-se pedir desde os copos tradicionais de 0.2 litros, 0.5, 1.5… ou em barris que vão dos 5 aos 30 litros…! Que são colocados junto à mesa respectiva para os clientes se servirem directamente (como na imagem do lado direito).
A música ambiente é garantida por um disc jockey. O preço é médio (15 a 20 Euros por pessoa) mas depende muito do que se bebe...


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Quinta-feira, Junho 09, 2005

Foge de mim 


( Fotografia de Vitor Melo )

Não, não quero mais
A tua cegueira de fome
Maior que a dos cegos que não vêem.
Vai para o aquém da tua carne marcada
De recortes sedentos.
Descobre armaduras
Para que as minhas mãos tropecem
E não avassalem espaços
Destroçando os teus segredos.
Arranja fortalezas só tuas
De azimutes verdadeiros
Onde a fogueira não morda as ameias
Da derradeira gota de contradições.
Rebenta em flores de pétalas e asas
E voa em archotes de verdade
Porque a abdicação é inteira.
Foge de mim
Para que não me perca loucamente
Na demência da tua carne
E me embriague no sonho
Da terra fértil e pronta
Do teu poema feito mulher.


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Domingo, Junho 05, 2005

Gala de Solidariedade 


Queridos AMIGOS, estou neste momento empenhada numa tarefa maravilhosa e apaixonante na qual preciso da vossa ajuda... se não for participativa a nível físico que o possa ser de forma solidária e amiga.
No dia 17 de Junho a ACAPO de Viana do Castelo vai organizar uma Gala de Solidariedade no Teatro Sá de Miranda. Uma festa na qual me ando a empenhar seriamente e sem limites. Os bilhetes irão começar a ser vendidos pela Associação e por Amigos meus que tentarão encher aquele Teatro numa noite que se pretende muito feliz e divertida.

O meu pedido é apenas este... ... E aviso-vos desde já que o "apenas" é bem suspeito!!! Como não poderia ser de outra forma vindo de mim (isto para todos aqueles que me conhecem, pois quando decido "andar" as minhas pegadas ficam marcadas no chão de terra firme que todos nós desejamos pisar). O pedido imenso que vos faço é que... comprem um bilhete para essa festa e nela participem ou que fisicamente impossibilitados de o realizar comprem na mesma o bilhete e estejam lá connosco de coração.

A ideia é que com o pecúlio arrecadado se possam comprar computadores que possam vir a ajudar Amigos Invisuais a aprender o Braille. ...o sobrante... se existir... será para tentarmos comprar uma máquina que traduz o Negro para Braille a fim de ser possível escrever mensagens acessíveis a todos aqueles que por obra de um destino menos doce foram "proibidos" de ver e ler.
Aqui vos deixo o meu repto, aqui vos deixo o meu pedido de ajuda. Darei notícias, prometo... e... quando PROMETO cumpro. Um beijo cheio de esperança para todos aqueles em que Acredito.


La Salette Sá

Nota: Esta foi uma mensagem que recebi da Salette e que não poderia cair em “saco roto”. Dado o inegável apoio social que esta Associação tem dado e continuará a dar, apelo para o vosso apoio por transferência bancária através de um simples clic numa caixa Multibanco ou Cheque que poderá ser enviado para:
E-mail: letinhasa@hotmail.com
Custo dos bilhetes: 7,50 € plateia e frisas; 6.00 € camarotes
Associação: Rua Nova de S.º Bento n.º 5 / 11 - 4900-472 Viana do Castelo
Banco / Nº da conta da Associação: Caixa Geral de Depósitos – 0852133183830
Site da Associação: ACAPO VIANA


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Sábado, Junho 04, 2005

Papagaios 


Um dia destes vi o que me pareceu ser um conjunto de várias centenas de papagaios. Como eu estava a cerca de dez quilómetros, também me ocorreu que fosse alguma miragem e então via como que uma parede tremeluzindo de inúmeras cores.
Meti-me à pressa no carro para verificar se era alguma ilusão de óptica ou se eram mesmo papagaios.
Em dez minutos cheguei ao local e o meu espanto foi ainda maior.
Junto à praia, na zona onde normalmente existem dunas, havia um imenso relvado bem tratado com uns 50 metros de largura e uns 700 metros de comprimento, ladeado de passeios a toda a volta. Ao longo de todo o comprimento estava uma fila de papagaios instalados, afastados entre si cerca de 2 a 3 metros. Eram quase todos diferentes, no tamanho, nas cores, no formato, etc., qual deles o mais bizarro. Quando vi quem manipulava o equipamento, composto normalmente por um pequeno guincho, um ferro espetado no chão, várias roldanas pequenas, fio e respectivo papagaio, numa total ausência de improvisos, ia esfregando os olhos para ver se estaria mesmo com alguma alucinação, pois não havia crianças por perto (estavam algumas na água) e tudo era feito por adultos.
Sentados na sua cadeira de praia, abrigados do sol intenso por um guarda-sol, muitos deles equipados com coletes e de luvas calçadas para não se ferirem com os fios, centenas de homens vigiavam o voo dos seus papagaios. Parecia um torneio de tiro aos pratos gigantesco. Nos passeios circulavam milhares de pessoas a apreciar o espectáculo como se fosse uma romaria. Ainda na periferia estavam instaladas várias tascas com cerveja e outras bebidas, sanduíches, etc., que não tinham mãos a medir com tanta freguesia.
Pelo que apurei, era uma espécie de festival que todos os anos realizavam.
Como me apeteceu arranjar um papagaio e fazê-lo levantar voo como em criança…


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Quarta-feira, Junho 01, 2005

Paraplegic but not allergic 

Bateria de lítio de longa duração, joystick para todas as direcções (360º) e velocidades, encosto lateral da cabeça suficiente para 2 ou 3G, leitor de CD com amplificador e colunas de som para uns 100 Watts stereo hi-fi, travões de disco, pneus para diferentes pisos, suspensão hydrodynamic e um sem número de detalhes que tornam a cadeira de rodas do Frank um verdadeiro paraíso tecnológico.
Circula ao som da melhor música por onde os outros andam, fala com toda a gente em várias línguas e nem parece um deficiente. Paraplegic but not allergic, como ele costuma dizer quando diz alguma piada às raparigas.
A cada dia que o encontro fico mais boquiaberto com a capacidade que ele revela para enfrentar a sua incapacidade. E tudo isto relativiza, brutalmente, os nossos pequenos problemas.


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