Quarta-feira, Março 31, 2004

As despesas de Narciso Miranda 

A imprensa tem feito eco da polémica à volta do pagamento de anúncios na imprensa relacionados com o falecimento do pai do Presidente da Câmara de Matosinhos, Narciso Miranda.
Para quem não sabe, a iniciativa terá sido de um vereador na ausência do Presidente e o total dos custos ascenderam a 60.000 €. Posteriormente o Presidente ter-se-á indignado com a diligência do vereador e terá mostrado vontade em assumir pessoalmente as despesas. Surpreendentemente, na passada 2ª Feira, todos os vereadores, do PCP, PS e PSD/PP, tendo como pressuposto que o Presidente não sabia, aprovaram uma decisão por unanimidade em que a Câmara suportaria a totalidade dos custos.
Mas esta história não deverá ter sido bem contada. O pai de Narciso Miranda é natural do Concelho de Viana do Castelo, onde foi a sepultar, e, por mero acaso, vi um cartão assinado pelo próprio, com os agradecimentos habituais destes casos. Até aqui nada de especial. Só que o envelope e o cartão tinham o timbre da Câmara Municipal de Matosinhos. Pelo menos neste caso não poderá alegar desconhecimento.
Como é evidente o valor dos cartões e envelopes utilizados é irrisório face às despesas na imprensa. Mas revela um comportamento não coerente e moralmente condenável (não sei se é ilegal). E põe em causa a veracidade do tal desconhecimento.



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Segunda-feira, Março 29, 2004

Ensaio sobre a lucidez da Noémia 

A Noémia andava mais feliz do que nunca. Não lhe faltavam assédios e os ciúmes das mulheres tinham diminuído ou até mesmo desaparecido, sendo que para esta última mudança, que era tão importante que já não havia recanto nos ministérios a que ela não tivesse acesso, terão contribuído algumas ocorrências, através das quais ela passou a ser vista com outros olhos pelas mulheres. Desses acontecimentos importará abordar os mais relevantes, ainda que a sua relevância seja subjectiva ou, o que será mais provável, o resultado de uma análise arbitrária, talvez ditada pela circunstância do narrador ter o nariz muito perto das imagens, não fruto de uma miopia ocular medicamente corrigida mas sim da impossibilidade física de abarcar todo o volume dos acontecimentos. E digo volume sem querer dizer quantidade, antes querendo induzir a ideia de que a acção, para além de se desenvolver na área de cada sala ou gabinete, se desencadeia sobreposta, em diferentes andares das inúmeras edificações ministeriais, e que eu vou procurar decompor, ou laminar, de modo a não aturdir a sua clareza. Se a contasse através de uma descrição fiel ao tempo, que é simultâneo em detalhes, provocaria uma distorção em tudo idêntica a uma audição de duas ou mais músicas ao mesmo tempo. Por isso, e depois desta nota introdutória, destinada a afinar esta ou aquela surdez que porventura possa surgir, vamos lá aos factos.
Estava a nossa Ministra das Finanças no seu gabinete do 12º andar, muito aborrecida com o seu baixo nível de popularidade, aliás merecido, dado os contínuos cortes orçamentais, feitos às cegas, à falta de melhor e mais científico método, mas que, curiosamente, nunca afectaram a contratação de assessores para os ministros, que cresciam diariamente como cogumelos, quando, de repente, teve uma ideia luminosa.
- Vou deitar pela janela uma nota de 100 Euros. Assim eu faço um português feliz…!
Um dos assessores, que estava permanentemente no seu gabinete mas que afinal nada fizera, ainda que possa estar a ser injusto pelo seu frequente ar compenetrado, provavelmente a reflectir sobre os inúmeros problemas que assolam o país, fez umas quantas contas na sua máquina de calcular e disse,
- Não Sra. Ministra… divida por duas de 50 e faça 2 portugueses felizes.
A Ministra olhou para aquele jovem assessor, do qual nem o nome sabia, mas que tinha uma vaga ideia de ter sido alguém do partido que ali o colocara, e um sorriso que já há muito tempo não experimentava iluminou-lhe o rosto marcado. Preparava-se, por isso, para seguir tão inteligente conselho, quando um dos outros assessores, após aturados cálculos feitos durante aquele longo olhar e raro sorriso, lhe interrompeu aquele gozo da descoberta.
- Nada disso, se dividir a nota de 100 por 10 de 10 Euros pode fazer 10 portugueses felizes…!
A Ministra parou de sorrir, franziu o sobrolho, semicerrou os olhos, como que preparada para trucidar o desgraçado, levantou-se e avançou na sua direcção de dedo em riste quando foi de novo interrompida, desta vez por uma loira espampanante que passara o tempo todo a limar as unhas.
- Oh Sra. Ministra, não me diga que vai seguir conselhos tão despesistas…!
- Quem é a menina e o que faz aqui?
- Sou a Noémia. Não se lembra? Todos os Ministros me convidaram para assessora naquele Conselho de Ministros da semana passada e eu escolhi-a a si… O que faço aqui é que ainda não descobri.
- Ah… Que cabeça a minha, já me lembro. Noémia… claro, a rapariga das ideias excelentes. E mais uma vez o provaste hoje. Ia dar, de facto, um mau exemplo à nação. Diz-me lá então Noémia, o que é que me aconselhas para que torne as pessoas felizes?
- Pule a Sr.ª daqui de cima que faz logo toda a nação feliz…!!!!



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Quinta-feira, Março 25, 2004

Indecisão da Noémia – aceitam-se apostas 

O estágio da Noémia estava a correr bem, o que, em termos práticos, significava que o seu trabalho no Conselho de Ministros estava a desenrolar-se acima das suas fundadas expectativas. Mas o convite para assessora foi inesperado. Aquele coro
- Noémia…! Está convidada para minha assessora…!
ainda trovejava na sua cabeça, que latejava sempre que isso lhe vinha à memória. Aliás nem tinha dormido bem nas últimas noites. Parou de ter sonhos eróticos com o Tone e com o Tino e passou a ter insónias de tanta responsabilidade que lhe queriam atribuir.
Como não tinha ninguém por perto, apesar de uma cidade como Lisboa ter tudo, sendo que onde não falta nada por vezes não se encontra o essencial, resolveu recorrer às suas amigas de sempre, a Ludovina Escarameia e a Fata Morgana. Enviou-lhes então a seguinte nota, comum para não ocupar demasiado tempo o computador de um Ministro, que por acaso estava ausente mas cujo chefe de gabinete poderia aparecer a qualquer hora:
Caras amigas Ludovina Escarameia e Fata Morgana:
Conforme já sabem fui convidada pelo Primeiro-ministro e por todos os Ministros para sua assessora. Como devem calcular, só me restam duas opções: aceitar ou não esse convite. E se aceitar fico com um novo problema: qual deles é que aceito? Já recebi várias propostas e uma delas, incompreensível para mim, não teria nada para fazer e um salário de 4.500 € + IVA. A única tarefa seria acompanhá-lo sempre que fosse necessário. Já devem ter percebido que é solteiro e, por exclusão de partes, que se trata do Paulo Tortas, muito embora desemparelhados por aqui não faltem.
Depois que aqui cheguei o ambiente está pesado, principalmente entre o mulherio, pelo que me disseram alguns homens mais íntimos. A ciumeira é desmedida e várias delas estão a fazer loby contra mim, usando o que aqui se chama tráfico de influências. Há papéis por todo o lado que procuram achincalhar-me, por exemplo reproduções de posts vossos e do Nilson, bem assim como alguns comentários. Mas o efeito é inverso, e a minha popularidade só tem aumentado entre os homens. O assédio é permanente
- És boa como ó milho…!
e não me cruzo com nenhum que não me dê um apalpão, pelo menos. Neste particular a vida é bem divertida por estas bandas. Ser assediada é um dos meus passatempos favoritos. Mas tem alguns inconvenientes, pois não é raro que, com toda esta excitação, se enganem nos discursos que os ministros têm para fazer. Algumas das gaffes e medidas insólitas com que os ministros vos têm brindado têm sido escritas, por razões de prazo, ao mesmo tempo que satisfazem os meus caprichos, ou eu os deles.
Estou tão confusa com a profusão de ofertas, assédios e outras mordomias que eu não sei para que lado me hei-de virar…! O que é que eu faço minhas amigas?
Um beijo da vossa querida amiga, que vos adora / Noémia
PS: Ludovina, não te esqueças do aluguer do barracão.

Horas depois, a primeira das merecidas respostas, da Ludovina Escarameia:
Estimada Noémia: Apesar de não ter casado com o meu cunhado Tino, simpatizei consigo e agora gostei de ver a sua dinâmica laboral no meio da ministrada toda! Ah, moça valente! Consultei os meus sócios na empresa biológica para acordarmos o preço final do aluguer do barracão a cobrar ao Governo e o preço é de 10.000 € por mês. Faz muito bem em adicionar uma comissão ao preço do barracão (+ 2.000 €), pois você tem de olhar pelo seu futuro...e até porque vai precisar de dinheiro para o seu enxoval de casamento e lua-de-mel, o que não é nada barato...E agora diga-me: Já anda de olho nalgum mocinho aí dos Ministérios? Qual? Quero saber tudo, amiga!
Quanto ao que deve fazer, com a experiência de vida que tenho, acho que deve apostar no cavalo certo, isto é, no Paulo Tortas. Bejinhos da Ludovina

A Ludovina, que ia direita ao assunto, convenceu de imediato a Noémia, ao ponto de se preparar para comunicar de imediato a sua decisão. Mas eis que chega a segunda resposta:
Querida Noémia:
A sorte é apenas uma abstracção
mas é nela que me inspiro
e nunca na razão
quando em todos os meus gestos
te prometo às cegas:
amanhã.
Nem sei se viste
A concórdia muda
ilude saudades
Longe de ti
tal como temias
descubro as verdades
e desfaço
o laço
Como é que sabias?

A Noémia ficou perfeitamente baralhada e sem vislumbrar o que é que a Fata lhe queria transmitir. Chegou a pensar várias coisas: que estava a gozar com ela, que se estava a atirar, apalpando o terreno (não estaria para aí virada com tanto homem de joelhos), que se estava a armar em intelectual e mais uma série de ideias difusas que não interessa aqui reproduzir. De modo que resolveu pedir ajuda.
- Nilson, vê lá se sabes o que é que a Fata quer dizer com isto.
Levei algum tempo a responder-lhe, para dar a ideia de que a coisa era complicada. E lá lhe disse que a ideia da Fata era que ela agarrasse a sorte com as duas mãos e escolhesse às cegas, que amanhã se dirigisse ao eleito e lhe dissesse que era perto dele (e não longe) que o poderia ajudar a descobrir as verdades, desfazendo laços que ele sabia existirem. E aí ele responderá: Como é que sabias?
Por quem é que a Noémia se decidirá? Aceitam-se apostas…



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Segunda-feira, Março 22, 2004

Estágio político da Noémia 

CONSELHO DE MINISTROS

Durão Barroso – Caríssimos Ministros. Temos um grave problema para resolver. Trata-se da segurança do Rock in Rio e do Euro2004.
Ministro da Administração Interna (MAI) – Tenho já aqui a lista do que preciso: 100 detectores de metais, 12 máquinas de RX como as dos aeroportos, 1 sistema de comunicação portátil para 200 utilizadores, 500 militares para apoiar a PSP e a GNR, 5 helicópteros, 3 aviões, 2 submarinos, 5 lanchas rápidas, reactivação de todos os postos fronteiriços e uma “task force” para coordenar tudo isto.
Ministra das Finanças – Olha o défice…! Não há dinheiro.
Durão Barroso – Bem… se não há dinheiro como é que fazemos Portas?
Paulo Portas – O que é preciso é um pouco de imaginação. Os detectores de metais, por exemplo, pedem-se emprestados aos caçadores ilegais de tesouros que enxameiam o Alentejo. Assim resolvemos 2 problemas sem quaisquer custos…!
Ministra da Saúde – Para as máquinas de RX eu tenho uma solução: elaboramos já um protocolo de cooperação e sempre que à entrada dos recintos aparecer alguém suspeito vai para a lista de espera. Com carácter de urgência, uma semana depois têm os resultados.
Ministro da Indústria – Sistema de comunicação? Não faz falta. Pede-se a colaboração dos radioamadores que eles pelam-se todos por serem úteis. Para além disso os internautas informam online como é que tudo se está a passar… Há ainda os rádios dos táxis e toda a gente tem telemóvel.
Paulo Portas – Bom… militares é comigo (adoro fardas…) e é muito fácil: abrem-se inscrições para voluntários e, como único prémio, dão-se umas borlas para as entradas…!
Ministro do Desporto – Eu falo já com o Madail para arranjar os bilhetes.
Paulo Portas – Helicópteros…? Como não há incêndios, pois aqui o colega deixou arder tudo (ainda me rebolo de riso quando o Leal Martins, nomeado pelo ilustre colega, disse para que as TVs passassem imagens de água…), os bombeiros emprestam-nos e não fazem uns quantos passeios turísticos (ih…ih…ih…).
MAI – O meu amigo é um provocador pós-moderno…! Já lhe disse para não se meter nos meus assuntos. Para além disso estamos de relações cortadas. Vá dialogar com o Bin Laden como o Mário Soares sugeriu.
Durão Barroso – Está decidido. Pegamos nos helicópteros dos bombeiros.
MAI – E quem paga a gasolina…?
Durão – Isso é um pormenor. As autarquias que paguem.
Ferreira Leite – Alto…! Isso afecta o défice, ainda que indirectamente. Nem pensar…!
Sarmento – Tive uma ideia: pede-se que os aeromodelistas sobrevoem gratuitamente os eventos.
Durão – Aprovado. Qual é o próximo ponto?
MAI – Era o dos 3 aviões, mas esse já está resolvido com o ponto anterior…!
Paulo Portas – Quanto aos 2 submarinos não há problema.
Durão – Ora até que enfim que há consenso para resolver uma coisa como dever ser. Os meus parabéns Dr. Portas, por essa disponibilidade incondicional…!
Paulo Portas – Bem… só há um pequeno detalhe… Há uma pequena reparação a fazer que custa cerca de 50 Milhões de EUROS em cada um… E o Arsenal do Alfeite diz que leva 6 meses a fazê-la.
MAI – Eu não digo que este gajo é um provocador…? Afinal o que é que funciona no seu ministério? As cunhas para os mancebos se livrarem da tropa sei que funcionam muito bem, mas não tenho notícias de mais nada…!
Paulo Portas – Dêem-me tempo e vão ver os meus novos submarinos, fragatas e corvetas a zarpar o Tejo como só o Infante D. Henrique fazia. Ó Durão, a propósito disso temos que firmar aquele nosso acordo da coligação para a próxima legislatura…
Durão – Tive uma grande ideia. Aliás é por isso que eu sou o Primeiro-ministro. Arranjamos alguns mergulhadores e pronto. Podem ser aqueles que andaram no Douro quando a ponte de Entre-os-Rios caiu. Medida aprovada.
Ministro do Desporto – Vou já directo para a melhor solução das 5 lanchas rápidas antes que o Paulo Portas invente mais uma das dele. Eu organizo competições diárias de windsurf nos rios mais próximos. Em vez de 5 ofereço 500…!
MAI – Quanto aos postos fronteiriços já pensei na saída: como os espanhóis o estão a fazer vamos dizer-lhes que se detectarem alguma coisa nos informem de imediato.
Durão – Aprovado. Quanto à “Task Force”…
Noémia (que tinha ouvido tudo enquanto servia águas e cafés) – Ilustres colegas de partido. Não faça essa cara Sr. Ministro (olhando nos olhos o Paulo Portas enquanto este ficava repentinamente cabisbaixo). Eu inscrevi-me nos dois partidos a conselho do Ti Zé da Ponte. Assim ninguém levanta problemas quando eu for deputada como a Fata Morgana propôs em tempos (bendita mulher… qualquer dia tenho que lhe agradecer). Como eu ia dizendo… Ilustres colegas de partido. Eu tenho uma amiga do peito que nos pode ajudar. Trata-se da Ludovina Escarameia, que tem uma horta biológica para os lados de Sesimbra e nos pode emprestar um barracão que não tem uso. Ela é esquerdelha… mas é boa pessoa. Eu já estive lá 2 noites com o Celestino e ela não se importou, por isso… aprovo eu esta resolução. E falo depois com ela.
Durão – Como está tudo arrumado… Ó Sarmento…! Toma lá nota para ler em comunicado à imprensa: O Conselho de Ministros, na sua sessão extraordinária de 21 de Março de 2004, tendo em conta os importantes eventos a realizar proximamente, irá implementar as seguintes medidas de segurança:
1 – Os caçadores de tesouros ilegais serão temporariamente transferidos para as entradas dos recintos de modo a controlarem todas as pessoas com detectores de metais;
2 – Os espectadores suspeitos serão enviados para os Centros de Saúde, onde serão submetidos a RX de modo a …
NoémiaAssim não, Dr. Durão…! Se vai discriminar as medidas os terroristas ficam a saber de tudo…! Eu acho que fica melhor assim. Ó SARMENTO…! Rasga esse papel e escreve: O Conselho de Ministros, na sua sessão extraordinária de 21 de Março de 2004, tomou as seguintes deliberações: Tendo em conta os importantes eventos a realizar proximamente, este Conselho irá implementar diversas medidas maciças de segurança, que envolvem sofisticados equipamentos de detecção de materiais e objectos proibidos, controlo suplementar radiológico a pessoas e objectos, meios de comunicação de som e imagem por satélite em tempo real, a totalidade dos efectivos dos três ramos das Forças Armadas, da PSP, da GNR e do SIS, destacamentos de reforço da NATO e da ONU, diversos meios terrestres, aéreos, marítimos, fluviais e subaquáticos, um rigoroso controlo fronteiriço e um centro coordenador equipado com as mais modernas técnicas, estrategicamente localizado em local secreto (que só duas pessoas sabem onde fica, isto é, eu e a Ludovina – Ó SARMENTO…! Isto não escreves, seu palerma).
Durão – Ó Noémia… mas depois as pessoas não vêm todos esses meios…!
Noémia – Ainda não acabei… SARMENTO…! Nota final: O Governo informa ainda que, de modo a garantir níveis de segurança altamente eficientes, todos os meios utilizados, devido à alta tecnologia incorporada, serão imperceptíveis para os cidadãos, levando a que nenhum terrorista, por também não os ver, apareça de ânimo leve por estas bandas…!
Todos (em coro) – Noémia…! Está convidada para minha assessora…!

O porteiro sai aterrorizado e foge para rezar a Nossa Senhora de Fátima…!



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Terça-feira, Março 16, 2004

Teatro - Noémia para deputada – Drama em 2 actos 

Personagens
Noémia – Loira, ex-namorada do Tone e actual do Celestino.
ToneSobredotado, ex-namorado da Noémia e actual da Kátia.
Celestino – Alentejano, sobrinho da Ludovina (horta biológica) e namorado da Noémia.
Esperança e Caridade – irmãs, cabeleireiras, vizinhas da Noémia e do Tone.
Padre Frederico – Pároco da aldeia da Noémia, Tone e irmãs Esperança e Caridade.
Padre Querubim – Pároco da aldeia do Celestino e Ludovina (n/ aparece mas está presente).
Kátia – Nova namorada do Tone, originária de Vladivostok.
Ti Zé da Ponte – Presidente da Junta de Refoios do Lima
Marlene – Funcionária dos Correios de Refoios do Lima


ACTO I
(A cena desenrola-se na Estação do Correios de Refoios do Lima. Mais de vinte pessoas para serem atendidas apenas pela Marlene. Entre os clientes estão a Noémia e o Celestino (tinham chegado de Sesimbra no dia anterior), a Esperança e a Caridade.)

Esperança (com ar de troça) – Então Noémia, por onde tens andado? Tens visto o Tone?
Noémia (prestes a explodir, mas contida) – Desde que ele vos deixou nunca mais ninguém o viu. Até pensei que vocês o tinham metido lá na cave do vosso salão…!
Caridade (ofensiva, começando a vingança prometida) – Nós não fugimos com ninguém para Trás-os-Montes, não pecamos com o Nilson, não nos metemos com o patrão, nem precisamos de Alentejanos motoqueiros.
Celestino (que tinha acompanhado a Noémia de regresso do Alentejo) – Isso do Alentejano motoqueiro é para mim? Pois saibam que a vossa história com o Padre cá da terra já é conhecida na minha. Quem me contou foi o Padre Querubim, que é amigo do vosso querido pároco…!
Padre Frederico (que vinha a entrar e ouviu a parte final da conversa) – Então você é que é o célebre Celestino, o que raptou a Noémia e fugiu com ela para Sesimbra… Sabe-me dizer porque é que o Padre Querubim abençoou essa ligação proibida? Desde quando é que você e o padre têm tanta intimidade?
Celestino (irado, já a gritar) – Está a querer dizer que o Padre Querubim é pedófilo?
Marlene (a espreitar por cima dos óculos) – O próximo.
Celestino (virando-se enfurecido para a Marlene) – Próximo pedófilo? O que é que você sabe disso?
Marlene (ignorando a provocação) – Sr. Padre Frederico, posso atendê-lo já a si.
Clientes (em coro) – Marlene, olha a bicha.
Celestino (olhando à volta, com ar esgazeado) – Não pode ser, como é que essa notícia chegou aqui? Eu não sou homossexual, o que se passou com o padre Querubim já foi há muito tempo e…
Noémia (interrompendo-o furiosamente) – Oh meu grandessíssimo maricas…! Sai da minha vida, já…! Compra um bilhete na estação e não me voltes a falar.

ACTO II
(Ainda nos Correios, já perto da hora do fecho sem clientes. Apenas a Noémia e a funcionária Marlene em amena conversa.)

Marlene (pesarosa) – Mas que vida a tua Noémia. Tudo te corre mal. Andaste com o Nilson, depois com o Tone que foi para uma guerra e agora isto com o Celestino. E essa história que tiveste com o teu antigo patrão também não correu nada bem.
Noémia (a desfazer-se em lágrimas) – E sabes como tudo começou…? Com uma sanita entupida… Depois fui com o Nilson a Montalegre e aprendi que fazer sexo antes do casamento é pecado. Como eu não ia casar com ele… Fiquei a gostar tanto daquilo… O Tone foi um acidente, soube na farmácia umas coisas dele e entusiasmei-me. Mas o safado enganava-me com as duas cabeleireiras… E ainda por cima fugiu para o Alentejo e como lá não havia gajas boas seguiu para a Rússia onde encontrou a Kátia…
Marlene (interessadíssima em saber pormenores) – Conta-me Noémia, como era o Tone? Ouvi dizer que ele era um garanhão, que era capaz de aguentar uma tarde inteira…
Tone (que ia a entrar com a Kátia) – Com que então a falar de mim…! Porque não falam em vez disso em criancinhas sequestradas…? Vejam lá se têm tento na língua que eu agora sou um homem casado.
Marlene e Noémia (em coro, com cara de espanto) – Casado?
Tone (exuberante) – Minhas amigas, a vida dá muitas voltas. Saí daqui para combater a Coreia do Sul, mas como deu tudo em águas de bacalhau regressei pela Rússia, onde tive a felicidade de encontrar a Kátia. Ficamos apaixonados ao primeiro olhar e casamos logo de seguida.
Noémia (em voz dissimulada para Kátia não perceber, que sorria sempre) – Ouve lá ó Tone… A gaja tem ar de puta. Encontraste-a nalgum bordel de Bragança?
Kátia (irritada) – Ouve lá meninov Noémio. Eu perceber tudovsky. Eu não ser pukta. Eu estudar portugovsky na scola e ser akumpanhantiev turistik. Ainda ser descendentov de kzar. Toma lá para niet ser atrevidoska.

(Gera-se um grande reboliço. Depois do estalo que a Kátia deu à Noémia elas envolvem-se numa cena de pancadaria, arrastando-se mutuamente pelos cabelos. Só a acção determinada do Tone é que pôs fim àquela batalha desbragada, que ambas perderam, dados os estragos que evidenciavam no final. O Tone saiu com a Kátia, deixando as duas sozinhas.)

Ti Zé da Ponte (entrando exactamente à hora do fecho, como era costume recente) – Então como correu o dia Marlene? Mas… o que aconteceu aqui? O que foi isso menina Noémia? Alguém lhe bateu?
Marlene (a Noémia estava sem fala) – Sabe Sr. Presidente, acabou de ter uma pega com a nova namorada do Tone. Namorada não… mulher, que ele já casou com ela…
Ti Zé da Ponte (consolador) – Deixa lá Noémia. Dentro de pouco tempo a Junta de Freguesia vai tomar conta dos Correios e tu vens para aqui. Vais ver que te dás bem comigo à frente disto.
Noémia (ainda abalada) – Ó Ti Zé… Então eu ia passar de cavalo para burro…? Eu sou secretária, falo várias línguas e já tenho larga experiência profissional. Até já trabalhei na secreta…!
Ti Zé da Ponte (fazendo-lhe meiguices nas feridas e falando-lhe ao ouvido) – Não há problema Noémia. Se prometeres que votas em mim eu ponho-te na lista dos deputados para o parlamento europeu lá do partido.
Noémia (abraçando-o a chorar) – Não sei como lhe agradecer… Mas acho que não se vai arrepender… Terá tudo que precisar de mim…
Marlene (pensando alto) – Estas gajas têm sempre a sorte do lado delas… Será que ela vai mesmo parar ao parlamento? Como é que a Fata Morgana sabia disto? O que é que a Ludovina Escarameia dirá ao Padre Querubim e que consolo dará ela ao sobrinho?

(O pano cai redondo, molhado em lágrimas, cortando rés o olhar boquiaberto do auditório)



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Segunda-feira, Março 15, 2004

Viva Zapatero 

A vitória do PSOE, que representa uma óbvia viragem à esquerda, levanta algumas questões que só o tempo irá confirmar (ou não):
Tal como em outros países, o povo espanhol esteve claramente contra a invasão do Iraque. Este resultado repôs a verdade. A retirada dos militares, conforme Zapatero prometeu na campanha eleitoral (apesar de uma eventual reviravolta, já que os dados se alteraram com o atentado) poderá ser interpretada como uma vitória do terrorismo islâmico. O novo governo, por isso, terá que pensar muito bem antes de se precipitar numa decisão.
As próximas eleições, nacionais e europeias, poderão ser influenciadas por esta vitória. Até mesmo nos Estados Unidos, onde uma percentagem significativa de americanos são hispânicos. O atentado veio relembrar que o terrorismo não está mais fraco e que o caminho seguido por Bush e os seus aliados não foi o melhor.
É por tudo isto que eu grito aos ouvidos de Durão Barroso: Viva Zapatero…!



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Quinta-feira, Março 11, 2004

As vizinhas da Noémia 

São três irmãs: Maria Esperança, a mais velha, a Maria da Caridade, a do meio, e a Maria da Fé, a mais velha e a única que é casada. As duas primeiras têm um salão de cabeleireiro, que abriram há 3 anos com dinheiros da CE, parcialmente a fundo perdido, através do programa de apoio a jovens empresários. Tiveram a ajuda generosa do Presidente da Junta, o Ti Zé da Ponte, a quem, a dada altura, tiveram que despachar
- Não apareça mais Ti Zé, olhe mas é pela sua patroa…!
por incompetência nas lides amorosas. Mas abandonaram (e isso foi o que lhes interessou de verdade) a chafurdice da criação de porcos, galinhas e outros animais, devido ao impacte ambiental
- O impacte é significativo, têm que implementar um plano para minimizar a poluição – diziam os técnicos
dos dejectos que o rio lá da terra já não diluía. Registe-se, em abono da verdade, que os tais técnicos nunca lhes aplicaram qualquer coima, tendo-se constado
- São umas vacas…! Coitados dos porcos…!
que tal raridade se teria ficado a dever a troca de favores entre as partes interessadas. Mas lá se urbanizaram através do tal salão, isto é, deixaram de cheirar a estrume de porco, passando a ter alguma cotação para os gajos que até aí se mostravam desinteressados, qual nuvem que muito promete mas que se esfuma ao mínimo sopro.
O Tone, também vizinho, foi um dos rapazes onde a Esperança e a Caridade fizeram o tirocínio e o curso completo, com agrado para os três. Passada essa fase, como boas empresárias que são e porque ele tinha sido, de longe, o que melhor desempenho tinha mostrado, era chegada a altura da reciclagem (delas, claro). Mas ele tardava em mostrar-se, mesmo com um controlo apertado que elas tinham montado e que incluía o visionamento ininterrupto do espelho do salão (plano de monitorização selectiva,
- Olhem o plano…
como os técnicos ambientais lhes quiseram impingir para manter a suinicultura). Após um mês de resultados infrutíferos resolveram investigar. Ninguém sabia dele, incluindo o Pároco Frederico, que contactou vários colegas sem sucesso. Um belo dia, quando estavam muito desconsoladas
- Porca de vida esta…!
a ver um telejornal, ouviram uma mulher dizer, a propósito de um pai açoriano que tinha escondido (vendido?) um filho e não dizia a ninguém:
- Procurem na Internet que lá encontra-se tudo…!
Foram de imediato falar com Padre Frederico, que tinha a Internet na residência paroquial. Após alguns visionamentos impróprios que o Padre intencionalmente provocou, mas dos quais ia pedindo desculpa às moçoilas com umas festinhas
- Oh minhas filhas, fechem os olhos que isto é obra do diabo…!
lá encontraram as notícias actualizadas que as irmãs pretendiam. O Tone tinha estado no Alentejo, na casa da Ludovina Escarameia, a dona da «Abençoada Coisa Alentejana», tipo casa de alterne literária, daí fora para a Coreia do Norte (o plano de matar o Presidente tinha abortado por culpa do Celestino), mas agora encontrava-se em Vladivostok, pois estava de namoro com uma gaja, a Katia, que encontrou na estação de comboios da cidade.
Mas havia mais: o Celestino e a Noémia tinham fugido para Fernão Ferro (Seixal) onde alugaram uma vivenda e já estavam a morar juntos. Tinham deixado a casa da Comadre Ludovina num vendaval e um bilhete na mesinha de cabeceira informando:
- Olhe cunhada, é só para lhe dizer que fomos de lua-de-mel. Se não nos conseguir contactar estamos numa vivenda chique à entrada de Fernão Ferro quando se vem de Sesimbra, mas é melhor ninguém nos incomodar nos próximos tempos…!
Quem estava muito informado era o Padre Querubim. Aí o Padre Frederico nem pestanejou e usou de pronto o seu SMS.
- Caro colega Padre Querubim: Quero informá-lo que a Noémia, a rapariga que se juntou com o Celestino, é minha paroquiana em Refoios do Lima. Não o conheço pessoalmente, mas o que vi permite-me afirmar que o colega é um fraco pastor. Deixou que uma das suas ímpias ovelhas se tresmalhasse e, por via disso, transviasse a mais ingénua ovelhita do meu ordeiro e devoto rebanho. Exijo que tome medidas drásticas de modo a que a Noémia regresse a casa de imediato.
- Caro colega Padre Frederico: Sou Alentejano mas não sou lento de ideias. A ausência da Noémia está a pô-lo nervoso. Qual era a relação que o colega tinha com ela? Está com ciúmes?
- Ouça lá, ó seu padreco de meia tigela. Está a insinuar que eu e a Noémia temos um caso? Olhe que eu acuso-o ao Bispo por difamação…! E ele tem mão pesada para padres libidinosos que não respeitam o celibato como o colega…!

Aquela troca de mensagens azedou e não deu em nada. As irmãs Esperança e Caridade estavam sideradas, como se o comboio lhes estivesse a passar por cima. O Padre consolou-as como pode e, quando regressaram a casa, já era quase meia-noite. Pelo caminho foram gizando um plano de vingança. Eles não esperariam pela demora…



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Terça-feira, Março 09, 2004

Tô nem aí 

- Durão Barroso, em visita ao Brasil, tem pintado o país a cor-de-rosa. É tudo muito maquilhado mas, nessa situação, ele deve fazer mesmo isso. E o Lula percebe isso.
- Ferguson e Mourinho têm trocados mimos, como preparação do Manchester-Porto de logo à noite. Verifico, horrorizado, que os ingleses aprendem muito depressa connosco aquilo que é mau.
- Segundo o livro de Cavaco Silva, lançado ontem, Santana Lopes amuou quando Cavaco lhe disse que com ele nunca seria ministro. «Isso pertence ao passado» – disse o visado – Agora já não amua – digo eu.
- Mário Soares e Paulo Portas continuam entretidos na sua luta particular. Ainda não percebi onde é que eles querem chegar. Os putos fazem o mesmo, mas resolvem o problema à bofetada.



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Segunda-feira, Março 08, 2004

Dia Internacional da mulher 

«Ao exigirem direitos e respeito estão a assumir a diferença, a pôr-se em inferioridade. Todos temos os mesmos deveres e por vezes as mulheres esquecem-se disso».
É desta forma que Olga Roriz (minha conterrânea), bailarina e coreógrafa e uma das 22 mulheres a ser condecorada hoje pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, encara a comemoração do Dia Internacional da Mulher.
Apesar de concordar com ela e ser avesso aos “dias”, aqui fica a minha homenagem a todas elas, em especial àquelas que aqui vêm.



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Sexta-feira, Março 05, 2004

Cantinho da poesia 




Dai-me o exacto exercício das palavras
flores de carne, sangradas
até à minúcia. Rigorosas.


Mas como dizer a dança
da luz, sobre os teus passos,
o riso, a errância dos gestos
sem que as metáforas destruam a exactidão
e a música se enrole nas sílabas,
como dois amantes
esquecendo a dualidade,
entrando na vertigem da unidade?

Maria João Cantinho
(mjcantinho@hotmail.com)

Maria João Cantinho nasceu em 1963, em Lisboa. Viveu em Angola até à adolescência e regressou a Portugal, após a independência de Angola. Licenciou-se e realizou a dissertação de mestrado em filosofia, na área de estética. É professora no ensino secundário. Colaborou na revista Livros, na revistas on-line Crítica - Central de Cultura e é membro do conselho editorial da Storm Magazine no jornal de poesia Hablar/Falar de Poesia, pela parte da Casa Fernando Pessoa. Integra o conselho editorial da revista Agulha, onde colabora regularmente. No ano de 2001 publicou o livro de contos A Garça. Em 2002, publicou o livro de poesia Abrirás a Noite com um Sulco, ao qual foi atribuída uma menção honrosa no prémio da Associação Fernando Pessoa. Tem publicações diversas, no âmbito de prémios literários e menções honrosas, nas modalidades de conto e poesia.



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Quarta-feira, Março 03, 2004

O mar da nossa mediocridade 

Uma das perguntas de ontem no concurso da RTP1, era
- 100 Quilogramas é o equivalente a:
A – 1 arroba
B – 1 quintal
C – 1 tonelada

A concorrente, licenciada em Filosofia, não soube a resposta, assim como 40% da plateia, constituída por 50 potenciais concorrentes.
Não é a primeira vez que fico estupefacto perante tanta ignorância. A concorrente anterior, licenciada em Direito, só soube que não havia notas de 30 € até ser eliminada. Como é que existem pessoas que têm coragem de participar num evento para o qual não têm a mínima preparação?
Há saberes que são básicos e toda a gente deve saber, porque são necessários para completar o 4º ano de escolaridade. Exemplos:
- A Tabuada (sem a ajuda de máquina de calcular);
- As 4 operações (somar, subtrair, multiplicar e dividir);
- Equivalências da Dezena, Centena, Grosa, Resma, Arroba, Tonelada, etc.
Outros saberes, para além destes, são básicos para quem é licenciado, em qualquer curso, porque são necessários para concluir o 12º ano. Exemplos:
- Princípio de Arquimedes e Teorema de Pitágoras;
- Ler e interpretar textos correntes em português;
- Escrever português sem erros ortográficos primários;
Se mais de 50% da população soubesse estes simples 6 requisitos, o nosso PIB seria muito superior. É que no saber básico está implícito (e é condição necessária para) o conhecimento de muitas outras coisas.
E porque será que o que é básico não está suficientemente assimilado?
(disse assimilado e não decorado, que não é bem a mesma coisa…)
Não é fácil responder, porque existe um vasto leque de causas para os efeitos que estão à vista. Mas, uma das coisas que sempre me atormentou, era não descortinar claramente o que é que eu tinha de saber em cada disciplina ou cadeira. Em cada uma delas, por isso, deveriam estar definidos quais os requisitos mínimos do saber.
No ensino universitário, muitas das cadeiras são de conteúdo nebuloso e os exames são verdadeiros totolotos (parecido com o jogo do bicho). A mesma cadeira, em Universidades diferentes, pode ter taxas de insucesso tão diferentes como a água do vinho. Há professores (e não são poucos) que são loucos, outros incompetentes. E no Ensino, como na Saúde, pessoas destas produzem marcas irreversíveis na sociedade.
Portanto… não há nada a fazer a não ser melhorar o ensino (reflecti sobre isso há uns tempos). As gerações activas já não têm cura. E o nosso PIB, na melhor das hipóteses, andará pela média Europeia daqui a uns 30 anos.
As coisas estão todas ligadas e são coerentes. Desde a atitude do Presidente da Câmara do Marco de Canavezes (ontem) aos debates estéreis sobre o aborto na Assembleia da República (hoje), passando pelo cartão amarelo (futebol?) que Ferro Rodrigues diz que o povo vai mostrar ao governo nas eleições para o Parlamento Europeu (há dias), tudo vai desaguar no mesmo mar da nossa mediocridade.



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Segunda-feira, Março 01, 2004

A Europa social ameaçada 

A pesada derrota do SPD de Schroeder em Hamburgo, que numa zona fortemente industrializada obteve o pior resultado do pós-guerra, não augura nada de bom para a Europa. Trata-se do princípio do fim da esquerda no governo alemão. É mais que provável que nas próximas legislativas a direita da CDU ascenda ao poder. E o eixo Paris-Berlim irá mostrar o que é um verdadeiro directório que, se Tony Blair também perder para os Conservadores, tentará americanizar a Europa. Mas, tal como Cavaco Silva disse este fim-de-semana, a vontade dos europeus é outra.
Será que é a partir de agora que a Europa social vai ser mesmo destruída?



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