Quinta-feira, Dezembro 09, 2004
O Padre Antonino
Nunca acreditei em milagres e em tudo que ocorre para além dos cinco sentidos. Refiro-me aos milagres no sentido teológico do termo, isto é, quando se observa um fenómeno sem resposta pelas leis da Natureza e que, geralmente, é atribuído a uma manifestação divina de poder.
O milagre é, por isso mesmo, inexplicável, insólito, isolado e excepcional.
Mesmo não acreditando, foi isso que eu senti por várias vezes por observação directa de um facto que se repetiu inúmeras vezes.

Membro de uma ordem religiosa sem grandes recursos, o padre Antonino era já velhote e o seu caminhar, nas sandálias sem meias que habitualmente calçava, era vagaroso. Falava muito com as crianças e dizia, amiúde, num tom espanholado: «Coração de jovem não bate, trepida!». Como era conversador, mais demoradas ainda eram as suas viagens a pé, coisa que preferia para não gastar o dinheiro (que não tinha). Era habitual, por isso, chegar sempre atrasado a todos os destinos. Onde a delonga mais se notava era nas missas que celebrava e nas chegadas ao comboio.
O seu atraso nas missas era sempre justificado aquando da homilia. Sem mentir, usando metáforas a preceito e devidamente enquadradas no tema evangélico das sagradas leituras de cada dia, explicava em pormenor as causas divinas da tardia chegada, tirando daí, invariavelmente, algumas lições de moral e, por vezes, ralhava com os fiéis por serem disso merecedores. Estas elaboradas desculpas sempre as atribuí à sua valia na oratória de improviso, porque era o mesmo método que utilizava nas conversas sobre os mais variados assuntos.
Já o atraso para o comboio nunca foi explicado cabalmente. Apesar de chegar sempre atrasado nunca perdeu o comboio. Mesmo com meia hora de atraso, o que vi acontecer uma meia dúzia de vezes, o comboio só chegava quando ele estava a aparecer na estação. Por via disso não tinha tempo de comprar o bilhete e os revisores, que já o conheciam, faziam vista grossa ao Padre Antonino. Viajava sempre de borla. O único argumento que lhe ouvi era de que o comboio era seu irmão. Nada mais disse sobre o assunto até à sua vetusta morte com cerca de 90 anos.
Seriam milagres ou coincidências? Como já disse, eu não acredito em milagres, mas estas coincidências a 100% não são matematicamente explicáveis pelo cálculo das probabilidades…
2 Comentários BLOGSPOT love poems poemas de amor Comentários HALOSCAN: |
