Quarta-feira, Dezembro 17, 2003
Sr. Presidente da República, perdoe-nos
Como num sabia-mos cum quem falar arresorbemos escreber ao sr. Presidente. Tratasse das murtas que nós perduamos e pur isso istamos im tribunal e eu e os meus culegas pençamos que só bossa exsselencia nus pudera oubir.
O que se passou foi que muintas das bezes que nós biamos aurguém in exsseço de belocidade ou a atrabessar num risco contino mandabamos parar o condutor que ia in transgressaom. Claro que toda a gente que é apanhada bem pra sima de nós cum choradinho e nós temos muita pena deles e perduamos a côima.
Bai dai pur uma questaom de inducaçaom eles ofressem sempre quarquer coisa e nós proque taobem semos inducados asseita-mos e cum o que junta-mos pudemos cumprar carros melhores a fazer umas pisssinas pros nossos filhos. Eu até poupei bastante e ofersi um cazaco de peles à minha namurada Ludebina Escarameia que despois até apanhou uma cossa do pai proque eles saom de Gundumar e ele até botou no major Balentim Loureiro cuma fezada que abia de a cazar cum bereador lá da Cambra. Eu até descunfio que inda pode aber quarqer coisa proque eu estou aqui no Algarbe e ela está lá im sima e num sei bem o que se paça.
Mas o que nós berdadeiramente qremos é que o sr. Presidente nos safe desta marosca em que nos meteram. Num percebemos proque o nosso comandante pude perduar as murtas ao deputado Patinho Antão, ao imbaichador, ao juiz e a outros graúdos e num é crime. O nosso até mandou a filha, caté é beim boa, para o esteranjeiro istudar e depois bai pra medicina proque tem amigos aí no mistério da inducaçaom. Foi um imbora mas ele tem outros amigos. E tem taobem uma amante cum casa posta e tudo perto da qinta da marinha cum barco de dois motores à porta que dá pra praia. E ele tem perduado aos grandes e num é crime. Nós perdua-mos aos pequenos e é crime. Omessa.
Foi pur isso que nós despois de muito matutar descubrimos que taombém num é crime o sr. Presidente mandar perduar ao tribunal. Quem nus ajudou foi o meu primo caté toca biola aí numa caza de fados da Mouraria que falou cum adebogado que istudou as leis todas e até cunseguiu que aofim de 15 anos um tal Beleza nem seqer seja jurgado. Ele procurou nos libros todos das estantes e num encuntrou nada que dissesse que era crime o Presidente perduar o que nós fisemos.
Por tudo isto nós pençamos que é fácil pró sr. Presidente tratar do assunto. Já falamos co sindicato que está do lado do sr. Presidente.
Cum muinta cunsiderassaom, assinei por todos
Surdado numbero 17.12/BT/2003,
Zé Rio Tinto
Notas da redacção:
1 – os erros ortográficos que a carta contém são em número muito inferior aos que o texto reproduzido apresenta; tal facto, que se lamenta mas que não é possível corrigir por estarmos na hora do fecho desta edição, tem a ver com o analfabetismo de um estagiário recém-licenciado (não dizemos qual o curso para não ferir susceptibilidades), aqui colocado a um pedido irrecusável do Sr. Presidente da Câmara de Matosinhos;
2 – por questões deontológicas não revelamos a fonte que nos facultou cópia da carta e, muito menos, não confirmamos nem desmentimos tratar-se de uma fuga de informação do adido militar da Presidência para o Dr. Paulo Portas.
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