Terça-feira, Julho 07, 2009
A vontade surda-muda de nos termos

Na verdade, nunca foste minha.
Nem eu deveras fui teu.
A nossa entrega teve
as asas da liberdade dos pássaros vestida.
Antes disso, gostava sossegadamente
da essência das coisas e era feliz.
Era um gostar de alguém
que ama sem ter mais nada para amar.
Enquanto foste minha e eu teu,
sem o sermos, senti melhor e mais perto
o inteiro mar que nos olhava,
unos, ainda que esvoaçantes.
E fui ainda mais feliz,
porque me deste o sentir sem nada me retirar.
Agora que não te tenho, sem nunca te ter tido,
vejo que nada perdi do que me deste.
Sinto o mar como quando estava contigo.
Talvez porque, errantes, as nossas asas
se tenham tornado irrelevantes,
e sejamos, um do outro,
a vontade surda-muda de nos termos.
Poema: Nilson Barcelli © Junho 2009
Fotografia: Autor desconhecido
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Terça-feira, Junho 30, 2009
Eu já não sei

Enquanto, das palavras,
o grito e o silêncio se dissolvem
numa fogueira ateada por achas de inquietude,
os teus gestos, do beco para onde
há mil resignações te empurram, são inaudíveis.
.
E eu já não sei
se és a voz de um rio sem água
nas margens da garganta,
se alguém que se dobra para colher
uma flor que não existe.
Enquanto a noite, madrasta, prospera
na sombra que alumia a tua alma diurna,
e ela se tortura numa reza de tristezas madraças,
são invisíveis, nos teus olhos,
as centelhas que florescem no amanho do futuro.
E eu já não sei
se és a agonia amordaçada
pelo tirano calar do prazer,
se a alegria de asceta disfarçada
na luxúria do prazer desse calar.
Poema: Nilson Barcelli © Junho 2009
Fotografia: Luísa Paula – Há fantasmas que nos perseguem
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Terça-feira, Junho 23, 2009
Ciclo virtuoso

Ao abrires as bainhas da pele
ao ritmo de um milímetro por dia
[até que fiques nua],
vislumbro, em cada poro,
o indício e a fragrância da volúpia.
Do teu corpo, ora proibido, nada vi…
As minhas caladas mãos
não foram além da feição visível
[na tremura do toque e do tacto]
do teu medalhado decote.
Deste pousio, um retiro intacto
de propósitos num conflito
de herbicidas de enganos
com fertilizantes de mel,
germinará o ciclo virtuoso
da colheita sucessiva
[sem delito serôdio ou temporão]
dos recatos da alma, primeiro,
e dos recantos do corpo, depois.
Deste amadurecido vagar,
usufruto maior que a razão haverá:
as nossas bocas não serão estrangeiras
no beijar de caminhos
afeiçoados aos arbítrios da língua
e correrá geleia real [finalmente]
nos meandros das nossas fronteiras.
Poema: Nilson Barcelli © Junho 2009
Fotografia: Haleh Bryan
NOTAS:
- “Ciclo virtuoso” – conceito que pode ser aplicado ao desenvolvimento científico,
tecnológico, económico, organizacional, ambiental, pessoal, social, etc.,
por oposição ao conhecido “ciclo vicioso”.
- “Pousio” - estado do terreno que não é cultivado para ficar mais fértil.
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Terça-feira, Junho 16, 2009
O que sou já nem eu sei

Não sei se sou uma aldeia
que flutua, envergonhada,
na firmeza das ideias
por entre a incerteza das palavras,
se uma cidade
que deambula, meretriz,
na clareza das palavras
com a boca na ambiguidade das ideias.
Em todo o caso,
debato-me enleado
na força que não faço das fraquezas
e sinto-me roubado
no absurdo das certezas
perante as verdades consertadas.
Serei gota que perdura, imiscível,
num mar de gente
que da lua é igualzinha?
Ou rio de evasão e permanência,
num cacto que vive morto
para resistir à falta de água?
Ou serei, estranhamente,
um corpo só, que na poesia se arrima
para melhor se calar?
Melhor explicado,
pois também não sei dizer
tudo aquilo que não sou,
o que sou, já nem eu sei.
Poema: Nilson Barcelli © Junho 2009
Fotografia: Mehmet Ozgur – No time to reason
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