Terça-feira, Dezembro 01, 2009
Escrevo-te

Escrevo-te
no meio de uma linha de montagem
de pássaros felizes, que das palavras
se perfumam apressados na tua direcção.
Escrevo-te enquanto me penso
distinguido pela tua árvore do sentir
e onde pouso com este canto nas asas.
Serás minha confidente se devolveres
os pássaros anilhados com palavras tuas,
sublinhadas pela mão que olha de frente
e agarra consistente todos os sentires.
Serás minha amante se vieres até mim
montada nos pássaros, pela urgência de ouvir
a tua própria alma, apregoando palavras
a calar o teu silêncio de laços por abrir.
Serás minha confidente
se o teu corpo não se acrescentar ao meu
nas asas do desejo.
Serás minha amante
se fores lava enquanto me beijas rubra
na aventura incerta da nascente.
Serás ambas as coisas
se as cartas tiverem o selo do amor
com o carimbo da paixão

Poema: Nilson Barcelli © Dezembro 2009
Fotografia: Autor desconhecido
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, cedência, difusão, distribuição, armazenagem ou modificação, total ou parcial, por qualquer forma ou meio electrónico, mecânico ou fotográfico deste texto sem o consentimento prévio e expresso do autor. Exceptuam-se a esta interdição os usos livres autorizados pela legislação aplicável, nomeadamente, o direito de citação, desde que claramente identificada a autoria e a origem.
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Terça-feira, Novembro 24, 2009
Perguntas-me quem somos

Perguntas-me quem somos
e eu escuto no espelho
o meu hálito impregnado de ti.
Corpos previsíveis
ou almas reais no saber maduro
que exaltamos a cada alvorada verde?
Sei que tactear o aceno dos teus seios
e sentir a explosão sedutora
da mocidade no teu rosto
é a senha de uma réplica
a apontar um jardim
prometido pela mira do destino.
E também sei que as tuas mãos
pensam nas minhas,
que hão-de chegar ao teu corpo,
com o desejo de te tocares
como rosa por abrir,
cuidando que as carícias são minhas.
Por isso, respondo-te
que é o teu ser
que me faz sentir o que pareço,
que não sei se é diferente do que eu sou.
E vice-versa.

Poema: Nilson Barcelli © Novembro 2009
Fotografia: João Bordalo Malta
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Terça-feira, Novembro 17, 2009
O gato e o rato

Estando à mesa,
não estou na mesa contigo.
Contudo, foi bom termos jogado
enquanto o jogo durou.
Adormeci na renúncia do teu destino
porque o jogo da verdade
acabou por falta de cartas.
Ainda que não te veja, nem tu me vês,
sei que continuas a beber
o vinho da fantasia,
convencida que o jogo continua.
Mas, nesta trama de mãos viciadas,
continuaremos parceiros
no mistério do gato e do rato.
Podes ter adormecido gato
enquanto eu bebo e, estando à mesa,
não estares na mesa comigo rato.

Poema: Nilson Barcelli © Novembro 2009
Fotografia: Simon Lyutakov
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Terça-feira, Novembro 10, 2009
Guardadores de rebanhos e gaivotas

Os rebanhos de algodão,
ao entardecer,
descem às pastagens dos nossos sossegos
e apenas a suavidade das gaivotas
reflectida nos teus olhos
parece querer abarcá-los.
Enquanto as nossas bocas
se arrebanham,
há um mar à nossa volta em gritaria
com o desejo de caber
na cegueira serpenteante das mãos,
ávidas em percorrer algodoeiros dóceis.
Abrimos, ao mar, todas as portas do peito,
e passámos a guardar os rebanhos
e as gaivotas dentro de nós.

Poema: Nilson Barcelli © Novembro 2009
Fotografia: Nilson Barcelli
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Terça-feira, Novembro 03, 2009
Vejo-te

Vejo-te, nítida,
projectada sob as pálpebras cerradas,
aberta aos sabores proibidos do Olimpo.
Salpicada de estrelas,
és nuvem de pele macia
numa faina de seda frutada.
Ao compasso
da luz a ninar-te o coração, flutuo
nos fluidos de ti e passo,
num pestanejar,
a percorrer as estrelas contigo.
Vejo-te, nítida,
por entre as pálpebras descerradas,
mas nem por isso menos proibida.

Poema: Nilson Barcelli © Novembro 2009
Fotografia: Ilona-Pulkstene
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Terça-feira, Outubro 27, 2009
O alento desta arte de esperar

O alento desta arte de esperar,
paciente, está no feitiço da voz
do último silêncio de ti
e nos muros de finura
que entre nós interpões.
Díspar estátua,
salto os muros desatentos
e subo ao telhado
para escorregar pela caleira.
Ao cruzar com a janela,
passo leves os meus dedos
a beijar o vidro dos teus lábios.
Diva e gelatina,
atiras-me beijos em queda livre,
que me acertam em cheio
como um vaso de flores
no caminhante indefeso.
Vou tentando e esperando,
com a arte deste alento, que te lances
da janela e dês aos meus braços
o que me roubas faz tempo.

Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2009
Fotografia: Stefan Gesell
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Terça-feira, Outubro 20, 2009
Esta noite

Esta noite,
viajamos sob a cauda
de um cometa em extinção,
a queimar laços que tombam apagados
para a negra vertigem do nada.
Esta noite,
sinto a mão a enferrujar
no amanhecer das tuas lágrimas,
delgado rio a estilhaçar margens
em sossego de aquário.
Nas próximas noites,
dorme comigo apartado do teu leito,
porque sou filho de um querer estrangulado
pelo asceta que persiste no meu peito.

Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2009
Fotografia: Autor desconhecido
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Terça-feira, Outubro 13, 2009
Apatia

Andar pelas águas de um lago
sem espanto
nem pranto.
Sonhar ao ritmo das baladas
de um mar sem sal
nem vendaval.
Trazer dentro do peito
estagnada
a ordem contrafeita.
Desamarrar pelos cornos
no tumulto
o jazz da rebelião.
Beber das rotinas
os ferretes que cozem
a vida em fogo mole.
Esquecer que a mudança
é fruto viçoso do impulso
que faz o sangue vibrar.
Ignorar que a bola não rebola
sem um chuto
e que o voo não cai maduro do céu
sem a batalha das asas.

Poema: Nilson Barcelli © Outubro 2009
Fotografia: Autor desconhecido
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